quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Por que eu sou feminista? [Eu sou feminista?] - Parte 1

Fui grosseiramente rotulada de feminista. Não que isso seja uma ofensa, mas é que não só nunca havia me visto como uma, como tudo que faço se afasta muito dos ideais feministas da nossa época. Não sou, nem de longe, o que chamam de emponderada.
Mas que eu não sou feminista de modo algum também seria uma inverdade. Tenho inúmeros pensamentos e linhas de raciocínio que são coerentes com o ideal feminista. Tentei me imaginar, talvez, como uma feminista moderada, mas não acho que seja bem por aí. Porque não acredito que feminismo seja uma religião, ou você segue todos os dogmas sem pestanejar, sendo assim um extremista, ou você segue os dogmas que mais se encaixam na sua realidade, fazendo de você um moderado. Feminismo é, além de uma ideologia, a reflexão sobre várias situações em que a mulher passou e passa, e o estudo dessas situações sob uma ótica racional, não apenas automática por ser lgo social.
Logo, quando eu digo que sou feminista, quero dizer que eu reflito sobre uma série de coisas que envolvem a mulher, racionalizo essa reflexão e tiro conclusões mais acertas e ponderadas possível.
Resumindo, eu quero ser uma cientista sobre questões que envolvem a mulher, ao invés de me doar à um fanatismo histérico em que mulheres, sem olhar de forma global as coisas que acontecem, acabam diminuindo a credibilidade do movimento diante da sociedade, que as escarnece. Elas podem se achar mártires do feminismo, mas estão ajudando a construir uma imagem totalmente deturpada da causa.
Primeiramente, o tema que eu gostaria de esmiuçar é o da mulher como objeto, porque eu acredito, pelo menos agora, que este é o cerne da questão.
Desde que a Humanidade saiu do sistema de matriarcado e foi para o patriarcado, que a mulher passou a ser vista como objeto. Um objeto qualquer, como qualquer outro. Vendidas, trocadas, alienadas, prometidas, enfim. E como objeto, obviamente, não tinham absolutamente nenhuma opinião a ser levada em conta. Objetos são propriedade de alguém, e a mulher até então era propriedade do seu pai e depois de seu marido.
Foi assim que a sociedade funcionou até o momento que o mercado necessitou que a mulher saísse do lar para trabalhar produzindo coisas. Nesse momento ela se distancia do seu "proprietário", que justificava a propriedade porque ele era o provedor, e se equipara a ele, sendo também provedora.
Ocorre que ainda que uma mulher e um homem trabalhem numa fábrica as mesmas 16 horas por dia, produzindo a mesma coisa, ela vale menos que um homem. Por que, se no fim das contas elas estão fazendo a mesma coisa? Provavelmente o dono da fábrica pensou "é um objeto de trabalho com defeito, pois engravida, pois menstrua e o homem não tem isso, pode trabalhar sem que haja nenhum tipo de interrupção." 
Há quem ache esse pensamento justo. Se uma mulher tem diferenças biológicas que a afastam do trabalho eventualmente, logo ela vale menos.
Sabe, essas diferenças biológicas não foram escolhidas por nós, mulheres. Antes pudéssemos escolher. E quem usa desse argumento está se apoiando numa possibilidade. Se a mulher engravidar, se a mulher precisar se ausentar por causa de uma menstruação. A mulher ganha menos, vale menos como instrumento de trabalho por causa de "Se"s. 
Isso sem contar que se pode dizer que a mulher, ciente da sua necessidade de se manter no mercado de trabalho, se adaptou, adaptou a sua natureza, sua biologia, qualquer coisa que poderia contar contra ela, para se manter no mercado.
Num ambiente fabril em plena Revolução Industrial, todos eram objetos. Mas o que é o objeto de um objeto? Um objeto de menor valor. É essa visão de que a mulher não foi feita para mais nada a não ser para o lar, mas que está no mercado por necessidade e que por isso, tudo fará pior (já que não nasceu para isso) que está por trás dos argumentos da época para justificar o fato de uma mulher ganhar menos.
Então, vamos dar um pulo para os dias atuais. A mulher se capacitou tanto, demonstrou tanto que no fim das contas as diferenças biológicas são tão irrelevantes a ponto de que qualquer trabalho que antes era inimaginável uma mulher fazer, ela faz sem grandes problemas, que ela está ligeiramente em pé de igualdade. Ligeiramente porque exatamente iguais, ainda não. A questão é: por que a mulher continua ganhando menos? Pesquisas apontam que uma mulher ganha cerca de 40% a menos que um homem no mesmo cargo. Por quê? Porque um dia ela pode casar e ficar grávida? Isso faz dela um ser menos capaz? Não me parece coerente.
A única coisa que deve justificar essa diferença salarial é se for comprovado que uma mulher tem um rendimento menor do que de um homem. Fora isso, é machismo.
Esta é uma realidade escondida, que ninguém repara muito, a não ser um questionador. E o problema do machismo é que se antigamente ele era norma social e por isso era escancarado, hoje, por ser politicamente incorreto, ele se esconde em lugares que só alguém que procure vá ver.
Outra forma de machismo incrivelmente inteligente que se esconde de qualquer mente desatenta. E essa merece uma reflexão bem profunda, porque envolve construção social.
Tudo que envolve construção social é difícil de racionalizar. Isso porque quando algo é social, fica muito difícil de desconstruir. E desconstrução é, inclusive, a palavra da moda. Oras, se você nasceu, cresceu e se desenvolveu numa determinada sociedade, tudo o que você sabe, tudo o que você entende, todos os seus valores e conceitos, vão vim dessa sociedade. Não é impossível, mas é muito difícil mudar qualquer coisa num indivíduo que foi a sociedade que o ensinou.
A nossa sociedade nos ensinou a mesma coisa lá do patriarcado, só que de uma forma mais sofisticada: a mulher é um objeto. E não um objeto qualquer, mas um objeto de consumo, de desejo, requintado, refinado. Bom, algumas mulheres são objetos bem melhores do que outras, então valem mais, como qualquer mercadoria. E isso, me desculpem, é puro machismo.
É complicado fazer entender que por trás do "essa mulher é muito gostosa e eu faria ou daria tudo para ficar com ela" e do "nossa, ninguém quer essa mulher feia", está a ideia de que a mulher não é um ser humano, assim como o homem, ela é um objeto de consumo. Quanto mais atributos ela tiver, mais ela vale (e isso está cada vez mais mercado mesmo).
Por esta razão produtos direcionados à homens colocam mulheres valiosas do lado, para agregar valor. O mesmo não acontece com um produto direcionado à mulheres. Colocam mulheres valiosas também! Sim, porque tanto o homem como a mulher consomem o produto "mulher". O homem a usa para fins sexuais ou para demonstrar o quanto tem de dinheiro. A mulher usa para ter um modelo de como valer mais.
Se isso é passível de solução, eu juro que não sei. Mas como mulher, isso me deixa arrasada. Eu adoro cultivar minha aparência, gosto de olhar no espelho e reconhecer traços do que me ensinaram que é belo. Mas eu odeio o temor de um dia valer menos só porque não estarei com o mesmo rosto e o mesmo corpo, odeio o medo de o meu homem pesar melhor e ver que outra vale mais. Odeio ser tratada como uma coisa que se não estiver desesperadamente correndo para preservar valor no mercado, vai sair de circulação. Isso não é ser tratada como humano.
Muitos homens dirão que isso é exagero, mas são esses homens que dizem que toda feminista só é feminista, só luta pelos direitos das mulheres, porque são feias e não teve alguém que as quisesse consumir. São um monte de mercadoria sem valor e por isso estão reclamando, para ver se criam do nada valor para si mesmas.
Em compensação, não há razão para confundir falta de higiene, de zelo pelo próprio corpo, de vaidade com justificativa, achar que se cuidar é invariavelmente uma forma de se manter como uma mercadoria melhor.
Eu acredito que o amor próprio começa no espelho. Quando você se olha e gosta daquilo que vê, não quando aprende a gostar do que vê, isso se torna mais importante do que qualquer valor que os outros possam lhe dar. Muitas "cartilhas" feministas dizem que se maquiar, usar salto, se depilar, é tudo para o consumo do homem. Pode ser, mas é para o meu consumo próprio também. Me responderão que é porque eu fui ensinada a isso, desde sempre. Com certeza estarão certas. Mas a questão é: vamos supor que desconstruir não fosse uma tarefa realmente muito difícil e complexa, e desconstruíssemos tudo. O que ficaria no lugar? Ficaria no lugar algo que alguém construiria. Por mais que as pessoas se adaptem, elas sempre vão seguir um modelo. E qual o modelo que a feminista emponderada quer que fique no lugar do atual? O que seria para ela se cuidar para si, levar em conta somente a própria vaidade? Ou não há vaidade na mulher, isso é uma invenção masculina? Porque eu discordo isso. Vaidade é, na minha opinião, algo intrínseco ao ser humano. Talvez o exagero e a obsessão feminina por isso é que seja uma invenção masculina.
Para resumir, como feminista eu quero me cuidar para ser consumida por mim mesma, para meu próprio deleite em primeiro lugar. E para o deleite daquele (ou daquela) a quem eu entregar minha afeição e meu interesse sexual. Porque se uma mulher se faz bela para satisfazer as expectativas de uma outra mulher, sua amante, é ou não é machismo? Acredito que não seja machismo, como não é querer ser atraente para pessoas específicas, com o limite do respeito a si mesma.
 

Sobre a vida e suas sagas

Recentemente eu resolvi ficar ruiva. Não parecia algo muito pensado, e sim feito no impulso. Não ponderei os cuidados que teria que ter com o cabelo, como as pessoas me veriam dali a diante, como eu me veria. Mas segui um impulso, e fiz. Em menos de 1h eu estava ruiva. 
Numa semana de tropeços eu fui me adaptando à ruivice. Acabei descobrindo um mundo onde muitas mulheres dão esses tropeços todos os dias em busca do "ruivo perfeito", algumas já têm prática o suficiente para nem o menos titubear, algumas já alcançaram o sonho acobreado e estão ali para ensinar ou apenas para mostrar ao mundo, com bastante orgulho, sua conquista.
O que percebi em todas as histórias é que elas não são curtas. E é aí que entra uma expressão comum neste mundo que me interessou muito: a saga ruiva. Todas as garotas passaram pela saga ruiva, usando várias tonalidades, indo ao salão várias vezes ou testando em casa mesmo, com todos os riscos que isso acompanha. Até chegar naquilo que queriam, naquilo que sonhavam.
No que isto é relevante? Oras, depende de para quem, tem toda a relevância do mundo. A pergunta certa é, o que eu quero dizer com isso tudo? 
Curioso como me tornar ruiva e me juntar à um grupo de garotas que estão ruivas me ensinou uma coisa óbvia sobre a vida que eu nunca pensei antes. Ou se pensei, reprimi. Afinal, não é a ideia mais confortável do mundo.
Tudo na vida é uma saga. Por mais que as pessoas tenham me repetido isso a vida inteira, de diversas formas, foi com a "saga ruiva" que eu entendi. 
Fico pensando na palavra saga. Me dá a impressão de algo árduo, complexo, longo, doloroso. Tentar e tentar e tentar, quantas vezes for preciso, com calma e paciência, até que um dia acontece.
Minha saga ruiva foi breve, coisa de uma semana. Não me vejo testando cores e nuances. Estou me adaptando ainda ao ruivo que me foi dado, mas não pretendo sair lutando por outro. E isso dá por muitos motivos, mas principalmente porque eu não tenho paciência. É por esta razão que em 28 anos me neguei a ver que tudo na vida são sagas, uma atrás da outra. A saga para se formar num curso superior, a saga para encontrar um emprego, a saga para manter um bom relacionamento amoroso, a saga para lidar com os problemas familiares. A saga contra minha depressão. Se eu tivesse visto tudo isso como saga, desde o começo, talvez a realidade hoje fosse totalmente diferente.
Eu sempre dizia a mim mesma que não lutava em sagas por determinada coisa porque as coisas eram escolhidas para mim, não por mim. Não estava sendo completamente falsa nesse argumento. De fato eu nunca parei e pensei no que eu realmente gostaria de ser, ou de fazer, ou de sentir. Eu nunca tive paciência para isso, sempre deixava à cargo de outra pessoa decidir. E quando outra pessoa decidia eu passava a achar que não valia a pena, pois a pessoa tinha escolhido pensando em si, não em mim e em minhas necessidades.
Mas Deus me deu exatamente aquilo que pedi. Algo para querer muito, algo que merece uma saga. E esta saga, para chegar naquilo que eu, só eu almejo, se estende por tudo na minha vida. Por família, por relacionamento, por saúde, por vida financeira. Eu preciso acordar, me colocar de pé, esticar minha alma que viveu inquieta, mas sem se mover par lugar algum, e fazer tudo que está sob meu alcance, para alcançar meu objetivo.
Uma saga tem muitas partes e obviamente eu preciso começar pela primeira. Mas eu tenho medo até mesmo de olhar a saga, antes de começá-la, como se no momento que eu souber o que tem que ser feito, já estarei envolvida, e uma vez envolvida, minha vida não será mais de um descanso triste, pesaroso e angustiado, será de trabalho, de tentativas, erros, frustrações e novas tentativas.
Não sei se tenho medo do trabalho em si ou das frustrações. Se for do trabalho, sou uma grande imbecil que não merece nada na vida. Mas o que sei de mim é que quando eu trabalho e vejo resultados, fico obcecada por aquilo. E trabalhar se transforma num prazer insano. Então sim, eu mereço tudo na vida. Mas eu odeio as frustrações. Nossa, como eu as odeio! São sempre elas que me fazem desistir. É essa perseverança que me falta, esse olhar de que mesmo que minha tentativa tenha sido em vão, nada mudou, é hora de começar tudo de novo, e tentar mais, e melhor. Porque é uma saga. Ninguém disse que na primeira tentativa tudo será como eu sempre sonhei, porque esse não é o conceito de saga.
Preciso parar de ter medo das frustrações e preciso aprender a lidar com elas, a ignorá-las como fator limitante e, ao contrário, utilizá-las ao meu favor, ver nelas os meus erros para que futuramente eu não precise mais cometê-los. 
Eu preciso começar a viver a minha saga, ao invés de me esconder dela.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Sobre as dores imaginárias

Sempre achei que escrever era uma oportunidade de organizar meus pensamentos, planificá-los. Mas ultimamente eu posso até ter feito bons textos, mas eles não foram o suficiente para eu ver melhor as coisas que estão acontecendo e o que eu estou sentindo.
Primeiramente, sempre tenho esse medo de estar sendo vigiada, ou de ser um dia. Infelizmente as pessoas preferem caçar escritos sobre mim como se eu fosse um ser extinto. Elas preferem isso do que simplesmente olhar para mim, se desfazerem de suas armas e realmente perguntar como estou. Mas eu sei que é uma cilada, qualquer resposta errada e elas me torturam por muito tempo.
Eu não estou confusa, essa é a novidade. O mais interessante com o passar dos anos é que eu consigo ver nitidamente minha evolução. De alguma forma eu consegui perceber - para a tristeza de alguns - que no fim das contas somos somente uma bolsa de sangue, carne e ossos que um dia será pó. Todas as grandes mazelas emocionais podem até doer, mas são, em todo caso, imaginárias. Compreendendo isso dentro de mim, um peso enorme me foi tirado dos ombros. Percebei que de nada vale os desesperos que desprendi ao longo desses anos para coisas que só existiam porque eu queria que elas existissem, porque eu permitia e escolhia a existência delas. Bem, hoje eu escolho que elas não existam.
Mas as pessoas são completamente diferentes. Elas imaginam coisas em cada palavra, em cada olhar e escolhem para si todo tipo de dores e incômodos que não existem senão em suas mentes. Umas têm até um ponto inicial justo, como problemas financeiros. Isso é um problema real, isso é algo que pode interferir de fato no equilíbrio das coisas que realmente existem. Mas daí elas abrangem para coisas que não estão ali e no fim das contas, acabam imaginando demais e duplicando a dor que poderia já ser grande o suficiente para incomodar.
Outras pessoas não. Estas se agarram até com a alma em problemas criados do nada, fantasiosos desde o seu cerne, e estão sempre lutando com quem imagina ser seu inimigo. Como Dom Quixote, do mal, já que não há nada de risível quando se está no meio desse turbilhão gerado pela imaginação de outra pessoa que só vê guerra.
Depois de anos travando guerras dentro de mim, hoje, em relativa paz, eu não consigo entender por que as pessoas sempre preferem à guerra em seu dia a dia. Elas têm a opção, mas é como se houvesse aí um prazer bestial de duelar, de usar seus instintos de briga, de rinha. Para as pessoas com quem eu convivo nada nunca está bom, é sempre preciso revolucionar através da guerra.
Não me considero acomodada por não querer tantas revoluções em tão pouco tempo. Só aprendi que a vida já causa suas revoluções sozinha, e normalmente essas merecem todo o nosso fôlego, então não adianta perdê-lo com guerras que só existem porque você quer que elas existam. Quando a vida quer - e ela sempre quer - ela nos dá um soco certeiro no estômago, nos esmurra o maxilar logo em seguida e nos convoca para a briga, e não temos como fugir. Nesse momento precisaremos de todas as forças que há em nós para revidar e ganhar as inúmeras batalhas que nos foram preparadas. E a vida não quer saber se você está cansado de tanto lutar por outras coisas, ela vai continuar batendo do mesmo jeito.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Eu e a culpa

Eu cometi muitos erros na vida, isso é bastante óbvio. Só que eu tenho uma relação estranha com meus erros, e uma relação ainda mais estranha com a culpa.
Quando eu cometo um erro, eu não me sinto culpada, apenas sofro com as consequências. Consequências são capazes de me torturar por anos,mas culpa mesmo, eu não sinto. Em compensação sinto uma culpa profunda, venenosa e corrosiva pelas coisas mais banais, que muitas vezes nem foram feitas por mim.
Por toda a minha vida meu dia a dia foi permeado de culpa que me paralisava, me deixava em pânico, adoecia meu corpo e minha mente. Mas com esses anos convivendo com a culpa, eu aprendi uma preciosa lição: a culpa é completamente inútil. Se você fez algo de errado, sentir culpa não anula seu mau passo, sua ação ruim. O melhor que pode ser feito é não fazer novamente. E se não há razão para culpa, se a culpa tem a ver somente com a forma que outra ou outras pessoas vêem aquele ato, então menos sentido ainda em se sentir consumido pela culpa.
Eu ainda sinto culpa, geralmente por coisas pequenas, por não conseguir fazer todas as pessoas ao meu lado, ao mesmo tempo, felizes. E eu sei que isso é pura bobagem porque claramente essas pessoas fazem a escolha pela infelicidade todos os dias. É, portanto, absurdo, que eu me sinta culpada seja lá do que for.
Certa vez um médium me disse que eu sentia culpa porque tinha feito algo de terrível com alguém no passado, numa outra vida, e que esse grande erro, juntamente com o espírito que feri, me assombravam. Isso foi até eu racionalizar a culpa e passar não sentí-la mais.
Mas então ficou o vazio, que não consigo racionalizar. Estou sempre sentindo falta de algo. E eu não gosto de escrever sobre isso, porque é uma parte de mim que está sob uma sombra densa demais para que eu possa investigar sem cair no chão.

terça-feira, 19 de julho de 2016

A difícil arte de se amar

As pessoa falam em amor o tempo todo. Tudo gira em torno dessa sensação inexplicável que nos impele à presença de outrem como se fosse uma necessidade imediata e irremediável. Quando, porém, somos obrigados por qualquer razão a nos abster dessa presença, algo dentro de nós, orgânico e imaginário, nos trás uma sentimento de morte. Nada mais faz sentido, tudo é tão doloroso e triste, não existem mais cores, nem risos, nem paz.De uma hora para a outra nada mais faz nenhum sentido e a vida passa a ser uma tortura.
Sentir falta de pessoas que amamos, da pessoa que nos propiciou incríveis momentos de profundo apego mútuo não é nada errado ou anormal. É óbvio que quando algo de bom e prazeroso é tirado de nós, um certo vazio fique. Mas até onde isso é saudável? E por que em muitas ocasiões simplesmente não é?
Eu acredito que as pessoas não se amam antes de se propor a amarem uma outra pessoa. O que acontece então é que o outro se transforma no único ser capaz de lhe amar. E todo mundo quer ser amado, ninguém quer perder a única pessoa que lhe ama e se perde, desespero é uma reação comum.
Mas, então, o que seria se amar? Querendo ou não, apesar do politicamente correto dizer que o que importa é nossa beleza interior, acho que o processo de se amar começa diante do espelho. Acho sim que o primeiro passo para se amar é se apreciar, é se deliciar com a visão de si mesmo. Pessoas que gostam da sua aparência têm uma chance muito maior de lidarem melhor com a rejeição alheia, porque no fim das contas já se aceitam muito bem. 
É por isso que a partir de hoje eu quero fazer por mim e para meu deleite, o melhor para minha aparência. Pretendo cuidar do meu corpo, do meu cabelo, escolher roupas que me realcem. Mas acima de tudo isso, eu preciso colocar na cabeça que sou jovem, linda, desejável e que qualquer pessoa gostaria de mim. Sem essa ideia na cabeça nenhum esforço para mudar e aperfeiçoar a aparência é válido. Tanto que conheço inúmeras pessoas com a aparência fora dos padrões e as vezes desagradável mesmo, mas que transmitem uma segurança, uma auto estima tão poderosa que nunca estão sem ser loucamente amadas por várias outras pessoas.
A segunda forma de se amar é pôr na cabeça, seja como for (repetindo como um mantra, se educando) que ninguém no mundo é insubstituível, apenas você mesmo. Estamos namorando, o namoro é incrível, aquela pessoa parece te amar profundamente. Mas então acontece algo, qualquer algo, e o amor já não é o mesmo, passou a ser raso, parco, quase nulo. Você pode tentar consertar as coisas, conversar, vê se há como voltar ao melhor do amor, da paixão e do desejo. Mas se não houver jeito, é levantar e ir embora, sem dores maiores do que uma perda perfeitamente reparável.
Entenda que não estou dizendo que as pessoas sejam descartáveis. Mas se uma pessoa não te quer, não adianta, jamais, em hipótese nenhuma, mendigar o amor dela. Se ela te olha nos olhos e diz, com palavras, gestos ou até mesmo com o simples olhar, que não te ama mais, acabou, game over. Você vai sentir um pontada no peito por causa da rejeição, isso é orgulho ferido. Você vai sentir falta do tempo em que recebeu o que parecia ser todo o amor do mundo, isso é saudade. Você vai sentir o vazio que a ausência daquela pessoa vai deixar. Mas nunca se desespere, nem se rasgue em mil pedaços, nem ache que a vida acabou. Porque o que acabou foi apenas uma relação. Outras virão, bem mais e melhores da que foi. E com esse pensamento na cabeça, lhe dê uns dias de folga, de luto, e siga em frente.
E se estou dizendo isso é porque sei bem do que estou falando Já passei por fins que me devastaram como pessoa por muito tempo. Por anos. A mínima menção do nome do amor perdido me compungia, me fazia querer voltar aos pés dele implorando que me amasse novamente. E eu fiz isso, muitas vezes. Joguei no lixo respeito por mim mesma, amor próprio, dignidade, para implorar. 
De alguma forma isso me fortaleceu muito, e nos últimos anos acho que me fortaleceu até demais, porque me tornei cínica e apática. Mas não tem problema.Do mesmo jeito que se aprende a amar da forma errada, se aprende a amar do jeito certo. E é o que eu estou fazendo agora, ao começar do zero, com alguém que me ama.
Se sentir e se ver bela e desejável, entender que ninguém é insubstituível. Será que estou esquecendo de alguma coisa?
Não sei se falta alguma coisa, mas uma coisa eu sei: isso é um processo, um treinamento constante. As vezes você se torna uma rocha por causa disso, tem que aprender a medir as coisas.Mas mesmo assim o ideal é que você nunca baixe a guarda, que você nunca ache que já está com o processo completo. Se amar, no mundo de hoje, é um desafio que exige disciplina.Porque o mundo nos bombardeia direto e de todos os lados de que precisamos de alguém que nos ame para que sejamos completos, alguém que nos deseje para que sejamos desejados, alguém que se importe para que a gente viva sem cair nos abismos. Por isso estamos o tempo todo fazendo de tudo pela aprovação dos outros e nos matando quando não conseguimos. Mas tudo isso é mentira! Somos seres políticos? Somos! Precisamos nos conectar com outras pessoas? Precisamos! mas não precisamos nos anular por isso, achar que se uma determinada pessoa (ou qualquer outra) não nos ama, é porque não somos dignos de amor. Que o amor de uma pessoa é único e só ele que vale para nós. Isso não!
Porque o único amor imprescindível par nós, é o nosso. Sem esse, pode se desesperar, pode se matar, pode ir ao fundo do poço. Porque no fim das contas, lá sempre será o seu lugar. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Até onde as pessoas vão pelas outras?

Li certa vez a conversa - na verdade um monólogo desesperado, já que a outra pessoa se negava a responder - em que uma moça jovem, bonita, inteligente, cheia de vida e de possibilidades, se humilhava de forma triste e extrema para que um ex, se não a aceitasse de volta, que ao menos com ela fizesse sexo.
Fiquei me perguntando se eu chegaria a esse ponto, a essa altura da vida. Porque, infelizmente, eu já cheguei. Eu já fui o mais belo de mim mesma e me desperdicei mendigando o amor de alguém que me queria apenas para seus jogos. Mas depois que passamos por certas dores, em tese, aprendemos a não senti-las mais.
Então, pensei se voltaria a sentir isso novamente, se voltaria a passar por isso, a dar uma importância tão grande à uma pessoa à ponto de que meu orgulho, minha auto estima e minha dignidade valessem alguns minutos do prazer dele com meu corpo.
Espero sinceramente que isso nunca volte a acontecer. Vai ser uma grande derrota pessoal. Não me acho uma feminista por pensar que nenhuma mulher deveria passar por isso. Antes eu seja chamada de humanista, por achar que ser humano algum deve passar pela dor de se oferecer tão aberta e desesperadamente e mesmo assim ser rechaçado.
Eu acredito em auto estima. Vi recentemente um texto sobre alguém reclamando sobre os joguinhos entre casais que acabam de se conhecer e que neles, o que aparentar mais se importar, morre, perde. Levando em conta a conversa/monólogo que acabei de ler, esses joguinhos fazem bastante sentido.
O que parece é que no momento em que você diz que ama, que se importa, que demonstra o quanto quer aquela pessoa ao seu lado, está dando a ela uma poderosa arma capaz de lhe destruir completamente. Sendo assim, quem quer dar esta arma?
De quem é a culpa no fim das contas? Dos seres humanos tiranos (homens e mulheres) que assim dominam outros, ou dos fracos, que se deixam assim se dominar?
Sinceramente, acho que isso é culpa da fraqueza de alguns, que não vêem que valem mais do que o sexo de uma pessoa específica, do carinho e da atenção de uma pessoa em particular.
O mundo é vasto e praticamente infinito em possibilidades para você colocar o rosto do chão em reverência a alguém que não te deseja além do que desejaria um buraco qualquer ou um consolo qualquer que entra e sai.
Eu quero ter isso sempre em mente e nunca deixar que meus pensamentos se corrompam por causa de uma carência que, por experiência própria, se resolve  com a primeira transa que você tem depois do trauma do fim. Você pode amar quem não te ama por muito tempo, mas sexo, afeto e carinho se encontra em qualquer lugar, para que se vá mendigar por aí.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Por que estou aqui

Estou aqui por muitos motivos. Primeiro porque fui sim uma garota interrompida,  continuo interrompida. Segundo porque eu não entendo mais as pessoas. Não que me veja superior à elas, mas eu tenho tentado não me meter em confusão, não pressionar nem constranger pessoas ou forçá-las a fazer o que elas não querem, seja lá qual for o motivo. É absurdo uma pessoa que não está dentro de você ter a certeza das as razões que te movem, e deinir no fim das contas se o que você faz é certo ou errado.
Principalmente numa relação à dois, o poder de determinar o que é certo e o que é errado, o que vai ser seguido e o que vai ser abandonado, é um poder corrosivo. Vai minando a confiança entre ambos. Aquele que domina, desconfia que o dominado não está cumprindo suas exigências. O dominado desconfia que tudo que o que domina faz pode ser manipulação para seu próprio proveito, afinal muita gente gosta de ter escravos que nada questionam.
Eu só quero paz, para ser sincera. Houve um tempo em que eu quis alguém do meu lado para me acompanhar no que chamamos de jornada, e é incrível como em tempos tão ruins para se ter companheiros, e consegui. No começo parecia perfeito e por isso eu resolvi me doar, dar tudo aquilo que sempre achei que ninguém mereceu: confiança incondicional, respeito, fidelidade.
Até que ele resolveu se voltar contra mim por causa do meu passado, socando nosso relacionamento bem na boca do estômago somente porque eu vivi coisas antes dele, coisas nem tão graves, nem tão complexas assim, mas que na visão dele, faz de mim uma pessoa pior do que ele e por isso, uma pessoa que exige constante vigilância.
Eu odeio isso. Isso me lembra tempos negros em que eu era um cachorrinho assustado esperando meu dono mandar eu fazer uma nova e mais difícil acrobacia. Me lembro de levar gritos sempre que eu não conseguia ou a pior coisa do mundo a se escutar: "você foi tão perto, mas não conseguiu. E se você não conseguiu, não valeu nem mesmo a tentativa".
Relacionamento abusivo ou alguém muito protetor. Com quem eu estou? O pior dos relacionamentos abusivos é que eles se confundem com muitas outras coisas que as pessoas apreciam, de modo que ficam camuflados por um bom tempo, fica machucando por um bom tempo, até ser tarde demais.
Mas pela minha experiência, o primeiro sinal é a falta de diálogo. Obviamente ninguém começa a lhe mandar calar a boca na honey moon. Existe muita " conversa", para tudo existe uma "conversa". Onde um fala e o outro é brutalmente rebatido, com bons, maus ou péssimos argumentos, não importa. Então chega a fase de aceitar tudo, para facilitar as coisas, a vida. E aí tudo vai ficando mais crítico, o dominador com mais autoridade, mais a vontade para mandar, para definir as coisas.
Não sei se estou num relacionamento abusivo, não ainda. Mas é extremamente importante que eu tire as aspas da conversa e tenha uma onde duas pessoas adultas conversam sem querer sufocar a voz uma da outra. E vou tentar isso hoje.