Recentemente eu resolvi ficar ruiva. Não parecia algo muito pensado, e sim feito no impulso. Não ponderei os cuidados que teria que ter com o cabelo, como as pessoas me veriam dali a diante, como eu me veria. Mas segui um impulso, e fiz. Em menos de 1h eu estava ruiva.
Numa semana de tropeços eu fui me adaptando à ruivice. Acabei descobrindo um mundo onde muitas mulheres dão esses tropeços todos os dias em busca do "ruivo perfeito", algumas já têm prática o suficiente para nem o menos titubear, algumas já alcançaram o sonho acobreado e estão ali para ensinar ou apenas para mostrar ao mundo, com bastante orgulho, sua conquista.
O que percebi em todas as histórias é que elas não são curtas. E é aí que entra uma expressão comum neste mundo que me interessou muito: a saga ruiva. Todas as garotas passaram pela saga ruiva, usando várias tonalidades, indo ao salão várias vezes ou testando em casa mesmo, com todos os riscos que isso acompanha. Até chegar naquilo que queriam, naquilo que sonhavam.
No que isto é relevante? Oras, depende de para quem, tem toda a relevância do mundo. A pergunta certa é, o que eu quero dizer com isso tudo?
Curioso como me tornar ruiva e me juntar à um grupo de garotas que estão ruivas me ensinou uma coisa óbvia sobre a vida que eu nunca pensei antes. Ou se pensei, reprimi. Afinal, não é a ideia mais confortável do mundo.
Tudo na vida é uma saga. Por mais que as pessoas tenham me repetido isso a vida inteira, de diversas formas, foi com a "saga ruiva" que eu entendi.
Fico pensando na palavra saga. Me dá a impressão de algo árduo, complexo, longo, doloroso. Tentar e tentar e tentar, quantas vezes for preciso, com calma e paciência, até que um dia acontece.
Minha saga ruiva foi breve, coisa de uma semana. Não me vejo testando cores e nuances. Estou me adaptando ainda ao ruivo que me foi dado, mas não pretendo sair lutando por outro. E isso dá por muitos motivos, mas principalmente porque eu não tenho paciência. É por esta razão que em 28 anos me neguei a ver que tudo na vida são sagas, uma atrás da outra. A saga para se formar num curso superior, a saga para encontrar um emprego, a saga para manter um bom relacionamento amoroso, a saga para lidar com os problemas familiares. A saga contra minha depressão. Se eu tivesse visto tudo isso como saga, desde o começo, talvez a realidade hoje fosse totalmente diferente.
Eu sempre dizia a mim mesma que não lutava em sagas por determinada coisa porque as coisas eram escolhidas para mim, não por mim. Não estava sendo completamente falsa nesse argumento. De fato eu nunca parei e pensei no que eu realmente gostaria de ser, ou de fazer, ou de sentir. Eu nunca tive paciência para isso, sempre deixava à cargo de outra pessoa decidir. E quando outra pessoa decidia eu passava a achar que não valia a pena, pois a pessoa tinha escolhido pensando em si, não em mim e em minhas necessidades.
Mas Deus me deu exatamente aquilo que pedi. Algo para querer muito, algo que merece uma saga. E esta saga, para chegar naquilo que eu, só eu almejo, se estende por tudo na minha vida. Por família, por relacionamento, por saúde, por vida financeira. Eu preciso acordar, me colocar de pé, esticar minha alma que viveu inquieta, mas sem se mover par lugar algum, e fazer tudo que está sob meu alcance, para alcançar meu objetivo.
Uma saga tem muitas partes e obviamente eu preciso começar pela primeira. Mas eu tenho medo até mesmo de olhar a saga, antes de começá-la, como se no momento que eu souber o que tem que ser feito, já estarei envolvida, e uma vez envolvida, minha vida não será mais de um descanso triste, pesaroso e angustiado, será de trabalho, de tentativas, erros, frustrações e novas tentativas.
Não sei se tenho medo do trabalho em si ou das frustrações. Se for do trabalho, sou uma grande imbecil que não merece nada na vida. Mas o que sei de mim é que quando eu trabalho e vejo resultados, fico obcecada por aquilo. E trabalhar se transforma num prazer insano. Então sim, eu mereço tudo na vida. Mas eu odeio as frustrações. Nossa, como eu as odeio! São sempre elas que me fazem desistir. É essa perseverança que me falta, esse olhar de que mesmo que minha tentativa tenha sido em vão, nada mudou, é hora de começar tudo de novo, e tentar mais, e melhor. Porque é uma saga. Ninguém disse que na primeira tentativa tudo será como eu sempre sonhei, porque esse não é o conceito de saga.
Preciso parar de ter medo das frustrações e preciso aprender a lidar com elas, a ignorá-las como fator limitante e, ao contrário, utilizá-las ao meu favor, ver nelas os meus erros para que futuramente eu não precise mais cometê-los.
Eu preciso começar a viver a minha saga, ao invés de me esconder dela.
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