segunda-feira, 20 de março de 2017

É difícil estar numa crise de criatividade. Não sei bem nem se esse é o nome, já que sempre que eu escrevi não criei mesmo alguma coisa, sempre foram desabafos ou pensamentos meus. Mas de qualquer forma, me falta até mesmo isso. É difícil porque eu sempre encontrei no ato de escrever um conforto e até uma sensação de prazer, de satisfação, de gozo. Isso ser tirado de mim sem motivo me é estranho e injusto.

Me recordo que houve época em que eu escrevia freneticamente, sobre tudo, o tempo todo. Acumulei dezenas de cadernos contendo todo tipo de sensação juvenil, todo tipo de mágoa de berço, todo tipo de descoberta que uma pessoa muito jovem pode fazer. Mas sempre existiram olhos ávidos, curiosos e maliciosos que caçavam meus escritos para usá-los contra mim. Cheguei a montar esconderijos, a escrever em códigos, até que cansei desse esforço e apenas deixei de escrever. As pessoas que tanto procuravam, fuçavam até o subsolo se fosse necessário para achar algo meu, então o melhor era não ter mais o que eles achassem.

Então se passaram alguns anos. Deixei de escrever e quando eu pensava em pegar uma caneta e um papel, pensava em quem poderia ler aquilo. Desistia. Hoje me sinto um pouco mais livre para poder escrever, não necessariamente o que eu bem entender, mas alguma coisa, e então travou tudo. Me desacostumei a ver na escrita um escape. Na verdade, na linguagem no geral, já que não consigo sequer falar com quem quer que seja sobre o que penso e como me sinto.

Tem sido difícil mesmo, porque tenho para mim que desaprendi a me comunicar. Nunca consigo ser clara com as pessoas que estão ao meu redor, sempre falo coisas dúbias, não consigo organizar o que penso sobre determinadas coisas, ou organizar argumentos e usá-los. Dou informações erradas, falo palavras que eu não queria falar, que as vezes são exatamente o oposto daquilo que pensei em falar. 

Conheço algumas pessoas que não fazem valer o ditado de que comunicação é tudo. Minha mãe por exemplo não escuta nada que não seja dito pelos demônios interiores dela. Quanto à Johnny eu não sei dizer com certeza. A maior parte das vezes que conversamos sobre algo tenho a impressão de que ele não quer conversar, ele só quer alguém sobre quem ele vai demonstrar que está correto. Mas e se for o caso de eu não estar sabendo dizer a ele o que penso sobre as coisas que discutimos? E se o caso for de que eu não estou sabendo me fazer entender?

Comunicação será meu instrumento de trabalho daqui por diante. Por toda a minha vida minha tarefa principal será me comunicar com pessoas, ouvir o que elas têm a dizer e dizer a elas coisas que ajudem. Tendo essa falha, como vou poder executar meu trabalho?

E isso não é apenas um problema profissional ou de relacionamento com o outro. Eu sinto falta de me entender, de me compreender, de falar comigo mesma e entender.

A quase um ano atrás eu passei por um rompimento. Uma pessoa fazia parte de todos os meus dias e de quase todos os departamentos da minha vida. Sempre acreditei que nunca nutri por ela nenhum tipo de paixão romântica que fizesse o rompimento ser um imenso trauma (como já foi com outra pessoa, em outro momento). Na verdade planejei tanto nosso afastamento que no primeiro momento, não estranhei que ela não estivesse mais ali. Até que eu senti falta de conversar com ela. Seria uma paixão romântica surgindo tardiamente?

Pensei muito se esse era o caso. Até que eu tentei voltar aos momentos que passamos juntos para entender a razão de estar sentindo falta deles agora. A resposta nunca é simples, mas tem uma linha principal. E a linha principal era que eu não tinha medo das consequências do que eu falava para ela. Por isso, eu falava sem grandes travas e isso servia como um escape. Ela não era um psicólogo, na verdade nem era muito esperta para entender as coisas que eu dizia, mas eu não precisava ter medo de dizer. Muitas vezes ela nem sequer prestava atenção, se enfadava, se entediava, mudava de assunto, mas nunca me punia pelas coisas que eu dizia.

Hoje em dia tudo tem que ser bem medido e bem pesado antes de sair da minha boca. Na grande maioria das vezes, mesmo com todo o cuidado, eu falo o que não devo e sou punida por isso. Eu já vivi essa censura quando escrevia, agora eu a vivo quando falo. E assim como a censura atrofiou minha capacidade de escrever, está atrofiando minha capacidade de falar.

Então mesmo quando eu deveria me sentir segura para falar, como numa sessão de terapia, eu não sei como falar. Não encontro mais conforto na fala, não consigo mais falar abertamente. Fico pensando se eu é que sou azarada por estar sempre perto de pessoas que me tolhem direitos básicos como o da comunicação ou se eu estou cometendo um erro repetidamente com as pessoas ao meu redor, permitindo que elas me censurem. É uma questão que exige reflexão.

Sinto muito que as pessoas estejam sempre muito preocupadas com o que os atos e palavras signifiquem de imediato e em sua superficialidade. Ninguém se questiona o que realmente aquele ato ou aquela palavra quer realmente dizer, ninguém quer se aprofundar em ninguém, nem mesmo nas pessoas com quem convive. E esse será meu trabalho, só que com estranhos. E sempre será um estranho que se importará em fazer o mesmo por mim. É triste que as coisas pareçam sempre em preto-e-branco quando é óbvio que as nuances são infinitas. Por isso as pessoas passam 50 anos juntas e no entanto não se conhecem. Reconhecem hábitos e movimentos automáticos que qualquer um que tivesse tempo o suficiente para observar saberia. Mas não conhece a fundo o que a pessoa pensa, como ela se sente, por que ela pensa ou sente seja lá o que for. Isso sempre será o trabalho de um estranho, e isso é uma pena. Porque o estranho estará ali por dinheiro, na melhor das hipóteses para ajudar um tráfego de informações tentando desafogar apenas uma via, quando na verdade existe milhares delas. Cada pessoa com quem o paciente convive e se comunica é uma via pela qual ele recebe informações e estímulos que vão fazer dele uma pessoa melhor ou pior, mais completa ou mais vazia, mais feliz ou mais insatisfeita. Eu não acho que a solução seja meramente treinar o paciente para se conformar com o fato de que os outros simplesmente não o compreenderão e que ele tem que aprender sozinho a lidar com essa frustração e essa solidão no meio da multidão.

Eu dizer para um estranho como eu me sinto em relação aos atos de uma pessoa na minha vida vai mudar talvez como eu lido com esse sentimento, mas na verdade o importante seria mudar os atos dessa pessoa, caso eles sejam realmente nocivos. Acredito que todas as pessoas deviam tentar se conectar profundamente ao menos com as pessoas que amam, com as pessoas com quem se importam. Ouvir sem medo, sem julgamentos, tentar entender antes de se ofender, tentar ir à raiz das coisas, deixar a pessoa falar tudo que está dentro de si para depois analisar junto com ela, isso é conhecer uma pessoa de verdade. Isso é um real esforço de ser feliz com esta pessoa.

Mas isso é uma utopia. Todas as pessoas precisariam ser formadas em Psicologia para isso, além do que é sabido que mesmo na Psicologia, o terapeuta precisa invariavelmente manter uma boa distância do seu paciente. Qualquer aproximação compromete todo o processo.

E cá estou, tentando me conformar com a frustração de ter que viver só ao lado das pessoas que amo e encontrar companhia nos ouvidos de um estranho. As coisas parecem terrivelmente erradas. 
Houve uma época em que minha vida parecia extremamente emocionante. Isso porque dentro de mim estava sempre acontecendo um intenso furacão de dúvidas, desejos, frustrações, mágoas, euforia, tudo ao mesmo tempo. Há algum tempo isso se acalmou e desde então nada acontece dentro de mim. Obviamente que fora acontece. O cotidiano é vivo, coisas acontecem o tempo inteiro. Só que dentro de mim as coisas pararam. Vez ou outra algo acontece e está a ponto de me afetar, mas então simplesmente não me afeta. 

Isso realmente me deu um tempo de paz interior o qual eu estava precisando há muito tempo. Mas e se for sempre assim? Será que eu gosto da nova Laura, que não se abala facilmente, que nem percebe ao certo quando coisas boas e ruins acontecem? Onde está a antiga Laura e o turbilhão de sentimentos que geralmente a acompanhava? Porque ela certamente não desapareceu, deve estar escondida ou adormecida, não sei. É bom saber disso antes que seja tarde demais e ela reapareça de surpresa, deixando tudo uma completa bagunça.

Minha vida no geral tem tido algumas dificuldades operacionais. Falta de dinheiro, basicamente. Mas o resto tem sido previsível como um sonho que se repete todas as noites. Eu já acordo sabendo quase que exatamente tudo que vai acontecer. Não que eu não goste de um pouco de previsibilidade, é bom não viver de sustos. Mas isso também limita muita coisa, muito da minha visão de tudo. Penso que quando as pessoas têm vivências limitantes, toda sua alma fica muito limitada, pequena, sem criatividade, e acaba lhe faltando uma potência importante para fazer a vida ser impelida por um caminho mais produtivo.

Eu insisto em escrever porque isso foi o que me restou de atividade que demanda um pouco mais de mim, da minha alma, do meu pensamento. Mas eu vejo as palavras esperando impacientes para serem usadas, quando na verdade o que falta é assunto.

Já pensei em contar histórias, imaginar qualquer vida, até mesmo me imaginar na pele de outra pessoa, olhando o mundo através dos seus olhos e escrever sobre isso. Mas eu não sei, sinto que eu infectaria meu hospedeiro imaginário com muito de mim mesma.

Eu poderia por exemplo dar voz ao meu alter ego. Ocorre é que eu não o conheço. O que meu ego gostaria de ser e não o pode? Que tipo de pessoa eu gostaria de ser e não sou? Que coisas gostaria de realizar e não o faço?

Curioso que eu imaginei um projeto que seria executado no meu último ano antes dos temidos 30. Imaginei uma série de coisas que eu gostaria de ser antes dos 30, mais organizada, mais focada, mais bonita, mais magra, mais inteligente, mais culta. De alguma forma tudo isso perdeu significado, importância ou sentido. Eu já sinto que não sou muita coisa, o que aconteceria então se eu programasse o que resta de mim mesma? Lógico que todas essas características são ótimas de se ter, eu não abandonei o projeto, apenas não estou apaixonada por ele. Se antes eu via com urgência a consecução de cada uma dessas etapas de aprendizado, hoje eu levo tudo com paciência e uma pitada de procrastinação.

Fico me perguntando se a vida é isso mesmo. Quando se é jovem se é estúpido demais para fazer de tudo um turbilhão de emoções. Quando se passa por uma determinada idade, tudo é calmaria e emoções não lhe definem mais. Todo mundo quer emoção, só que boa. Muita alegria, muito êxtase, muita euforia, muito prazer. Mas nenhum gozo sai impune, essa é que é a verdade. Para cada minuto bom que você tem na vida, meses precisam ser vividos com trabalho árduo e desagradável.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Eu realmente queria poder desabafar, mas eu não me sinto bem conversando com ninguém. Nem mesmo meu terapeuta, que me oferece um campo absolutamente neutro, onde a minha fala é a única coisa que importa, consegue fazer eu me sentir à vontade.

Talvez seja porque muitas coisas eu não quero confessar nem para mim mesma, talvez porque eu não tenha sentido conexão com ninguém para expor as coisas que venho sentindo.

Muita coisa mudou. Me sinto mais senhora de mim, dos meus planos, dos meus desejos e sonhos em relação ao futuro. Pela primeira vez eu não me paraliso com os problemas, porque estou sempre vendo uma luz lá na frente para onde estou caminhando e por onde eu sempre soube que para se chegar lá, o caminho seria difícil. Difícil o suficiente para fazer valer a pena chegar lá.

Tenho sonhado em me deleitar com tudo que existe de conhecimento humano sobre a mente, sobre as emoções, sobre os atos, sobre como as pessoas se constroem tais como são. Não sei bem se ficarei rica fazendo isso, mas sei que todo tipo de realização que me interessa eu vejo tendo nessa empreitada. Talvez eu acabe entendendo as pessoas que me cercam, as que sempre me machucaram, as que não percebem que existe algo além de suas vontades e birras.

Já fui acusada, até por mim mesma, de ser uma pessoa egocêntrica. Acredito que quando se rodeia de pessoas que não veem nada além de si mesmas, se constrói dentro de si uma necessidade desesperada de ser ouvida, de ter atenção.

Eu acredito que tenho feito tudo pelo Johnny. Minha dedicação a ele é completa: ele tem minha fidelidade como mulher, minha lealdade como amiga, meu investimento como alguém que está numa situação melhor do que ele e, apesar de não haver nenhuma obrigação, eu me sinto impelida a dar todo o apoio que for possível para vê-lo bem, vê-lo progredindo. Resumindo, eu estou cuidando dele. E isso não me trás nenhuma vergonha ou nenhum sentimento de raiva ou de arrependimento, como costuma acontecer frequentemente com minha mãe em seu relacionamento. Mas o que tem acontecido, é que ele não tem ajudado a me fazer manter essa mente aberta e em paz.

Ele reclama de tudo, sempre. Nunca as coisas estão boas o suficiente, e nada do que eu faço é bom o suficiente. Ele sabe apontar erros como ninguém, agradece por coisas banais, mas simplesmente ignora coisas que eu não faria nem por familiares. Agradecer por uma coisa banal faz parte de uma forma mecânica de parecer um parceiro agradável, talento que ele acha, erroneamente, que domina.

Ele sempre soube que eu não estava preparada para assumir o papel de esposa e de dona de casa quando resolvi que ele viria morar comigo. Na verdade eu estava me preparando para finalmente viver só novamente depois de tantos anos. Ter meu espaço, minhas regras. Mas eu o vi em uma extrema dificuldade e percebi que de nada valia minha "liberdade" se fosse para não estender a mão à ele, salvá-lo de uma situação de risco.

Eu, da minha parte, sempre soube que as coisas seriam assim, mas eu tive fé. Fé de que talvez ele reconhecesse o que estou fazendo por ele, nem como namorada, mas como pessoa. Não espero vivas e aplausos, mas também não esperava berros constantes como se eu fosse uma criança que não sabe fazer nada certo. Não imaginei que ele tomaria conta da minha vida, das minhas escolhas, e até mesmo das minhas opiniões e pensamentos, tentando me impor tudo o que ele é e tudo que no que ele acredita na base da passiva-agressividade, mesmo eu fazendo tudo que tenho feito.

O que eu quero apenas é respeito e reciprocidade. Ele pode continuar a ter todas as opiniões possíveis, porque por mais que eu não concorde com a maioria delas, eu o respeitarei como pessoa, sempre. Ele só precisa aprender a fazer o mesmo comigo.

Mas ao contrário disso são tantas coisas que me soam como um profundo desrespeito por tudo que estou dedicando a ele. Primeiro, ele não consegue falar comigo nada que não envolva um aumento no tom de voz e uma clara marca de agressividade. É curioso que até nas expressões corporais dá para notar sua vontade de intimidar: um passo a frente, uma postura mais ereta, como quem está "crescendo" diante de mim. E quando eu falo algo, uma das melhores formas de finalizar o assunto numa única frase é afirmar o quanto o que eu estou dizendo é estúpido. Ele está constantemente lendo ou se informando sobre uma determinada coisa e me joga quase que literalmente uma notícia na casa sobre o assunto e dispara: e aí, o que você acha sobre isso? Sem base, sem contexto, sem preparo, sem leitura e sem vivência sobre o assunto me limito a responder que não tenho opinião sobre. Parece que desonrei ele, que o desapontei profundamente e como castigo, ele tem que falar comigo e me olhar com desdém ou até com raiva. Para ele, parece que meu silêncio sempre é um convite para uma guerra ideológica.

Eu não suporto mais seu conservadorismo chato e petulante, tão cego como a esquerda que clama por falsos heróis. Ele já começa uma discussão pronto para dizer que estou errada, pronto para atacar com ferocidade caso minha linha de pensamento não esteja de acordo com a dele e, pasme, se tiver de acordo também. Ele tem uma fome insana de provar que é intelectualmente melhor do que eu quando pra mim isso não faz a menor diferença.

Talvez ele tenha se sentido um pouco intimidade desde o começo da relação por causa do fato de eu sempre ter tido (e ainda ter) todo o apoio possível para ter uma boa educação. Intimidado também porque ele já me pegou numa fase em que minha auto estima está acima de muita coisa, o que não era comum nas suas mulheres anteriores. Intimidado por eu ter praticado relacionamentos sem apego. Quando ele fala das mulheres anteriores, a impressão que dá é que elas colecionavam alguns fracassos que de alguma forma o colocava como superior à elas. Uma não estudou nem nunca trabalhou e não tinha nenhum talento a não ser seduzir homens por farras. A outra, era extremamente carente. De algum jeito ele se destacava em relação à elas. A primeira o fez de bobo por muito tempo, até ele pegar as rédeas da sua vida e decidir que nunca mais alguém faria algo do tipo com ele. A outra era a pessoa errada, na hora e no lugar errados. Pegou um Johnny excessivamente confiante para sua excessiva carência e de alguma forma amargou ser o "cachorro pequeno" da relação.

Ocorre é que eu não me sinto ligada à esse relacionamento de uma forma doentia e acho que ele sente falta disso. Eu não morro se ele for embora, minha vida continuará no minuto seguinte, sem grandes dramas. Eu tenho minhas vivências, minhas experiências que foram e as que estão por vim, eu tenho minha auto confiança e meu amor próprio. Eu não preciso estar ao lado dele, eu quero estar ao lado dele. E talvez ele tenha medo de saber que é só uma questão de escolha, não de necessidade. E não adianta que ele vocifere acusações de que por isso eu sou uma feminista que "odeia" homens, eu não quero abrir mão de ser a pessoa que eu sou por causa de suas inseguranças. Eu poderia ter milhares de inseguranças em relação à ele, mas não quero deixar que elas surjam, se levantem contra mim e firam meu bem estar comigo mesma.

O que mais me preocupa nisso tudo é que aparentemente ele tem uma imensa resistência em mudar. Já conversamos sobre isso, amigavelmente e nem tanto, mas ele não muda. Talvez ele tente fazer um esforço, eu não sei, mas o fato é que nunca muda nada. E o que eu queria que ele soubesse a tempo é que eu não tenho obrigação nenhuma de viver isso, de ser tratada desse jeito, particularmente por uma pessoa por quem tenho me esforçado tanto. Não quero que chegue um momento em que eu me sinta perdendo meu tempo, minha paciência, minha vida numa relação abusiva, e então peça para ele se retirar da minha vida, já que todos os meus esforços para ele se adaptar à ela não foram suficientes.

Ele trata nosso possível fim como uma imensa falta de moral minha. Sempre que isso vem em questão, ele sempre tenta colocar como se a única razão pela qual eu terminaria nosso relacionamento seria para viver outros da mesma forma desapegada que vivi outrora. Não ocorre a ele que esteja cometendo erros que estão nos corroendo. Erros que ele tanto fala que casais cometem e por isso findam. Ele sabe apontar os erros dos outros, mas nunca percebe os seus próprios.

Estou cansada da agressividade, do seu desrespeito, da sua ingratidão, da sensação de competição que ele resolveu instalar entre nós. Estou cansada dele se sentir senhor da minha vida, quando ele não é nem mesmo da dele. Estou cansada de ajudar alguém que não consegue pensar antes de me tratar mal, que não filtra o que diz e como me diz.

Ele abomina pessoas que descontam suas insatisfações nos outros, como minha mãe, por exemplo, mas ele não entende que faz isso o tempo todo comigo. Eu preciso perguntar várias e várias vezes o que foi que aconteceu, o que eu fiz. Eu preciso andar pisando em ovos dentro da minha própria casa porque ele está insatisfeito com a própria vida. Ocorre que não estou levando a vida que sempre sonhei, muitos problemas estão no meu dia a dia, inclusive a forma como ele me trata, mas eu não vou descontar nele nem em ninguém, vou tentar olhar para frente e esperar o melhor possível do futuro. Isso porque eu dou muito valor ao que eu tenho, agradeço muito a quem me ajuda, trato-os com o máximo que posso de respeito e gratidão. Eu sei que por mais que as coisa estejam difíceis, por mais que elas não sejam as ideais, mas alguém me ama o suficiente para me dar apoio e isso facilita muito as coisas. Então eu vejo o que eu tenho, sou grata por isso, e vivo um dia de cada vez, pensando em que coisas posso fazer para tornar a minha vida e das pessoas próximas a mim, hoje e no futuro, melhor.

Venho tentado muito manter um tipo de paz interior que se baseia unicamente na repressão de todo e qualquer tipo de reação às coisas que me irritam ou me machucam. Mas tudo que se reprime vai escoar em algum lugar, e eu tenho bebido com uma frequência que espanta até à mim. Ontem eu tomei quase 1,5 l de cerveja no intuito de relaxar. Relaxar de quê? É difícil de entender que eu não estou bem, que beber todos os dias, ainda que não seja para ficar de porre, é um pedido de ajuda? Não é um mero costume que eu adquiri recentemente. Dormir em excesso também sempre foi um conhecido pedido de ajuda, ele sempre soube disso, mas quando isso acontece, ele não me apoia, ele não me abraça forte e diz que ficará tudo bem, que ele está ali por mim, para mim. Ele grita, ele se incomoda com a hora que eu durmo e com a hora que acordo até mesmo quando são horários normais. Porque ele tem a errada ideia de que ele é a medida de todas as funções da casa, mas isso não é verdade. Nós deveríamos juntos definir essa medida, já que ele não aceita que cada um viva a sua.

Repetindo, só espero que ele acorde a tempo e perceba que estou aqui o tempo todo, ele é quem não vê. E quando eu deixar de estar, não há nada que ele poderá fazer.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Por que eu sou feminista? [Eu sou feminista?] - Parte 1

Fui grosseiramente rotulada de feminista. Não que isso seja uma ofensa, mas é que não só nunca havia me visto como uma, como tudo que faço se afasta muito dos ideais feministas da nossa época. Não sou, nem de longe, o que chamam de emponderada.
Mas que eu não sou feminista de modo algum também seria uma inverdade. Tenho inúmeros pensamentos e linhas de raciocínio que são coerentes com o ideal feminista. Tentei me imaginar, talvez, como uma feminista moderada, mas não acho que seja bem por aí. Porque não acredito que feminismo seja uma religião, ou você segue todos os dogmas sem pestanejar, sendo assim um extremista, ou você segue os dogmas que mais se encaixam na sua realidade, fazendo de você um moderado. Feminismo é, além de uma ideologia, a reflexão sobre várias situações em que a mulher passou e passa, e o estudo dessas situações sob uma ótica racional, não apenas automática por ser lgo social.
Logo, quando eu digo que sou feminista, quero dizer que eu reflito sobre uma série de coisas que envolvem a mulher, racionalizo essa reflexão e tiro conclusões mais acertas e ponderadas possível.
Resumindo, eu quero ser uma cientista sobre questões que envolvem a mulher, ao invés de me doar à um fanatismo histérico em que mulheres, sem olhar de forma global as coisas que acontecem, acabam diminuindo a credibilidade do movimento diante da sociedade, que as escarnece. Elas podem se achar mártires do feminismo, mas estão ajudando a construir uma imagem totalmente deturpada da causa.
Primeiramente, o tema que eu gostaria de esmiuçar é o da mulher como objeto, porque eu acredito, pelo menos agora, que este é o cerne da questão.
Desde que a Humanidade saiu do sistema de matriarcado e foi para o patriarcado, que a mulher passou a ser vista como objeto. Um objeto qualquer, como qualquer outro. Vendidas, trocadas, alienadas, prometidas, enfim. E como objeto, obviamente, não tinham absolutamente nenhuma opinião a ser levada em conta. Objetos são propriedade de alguém, e a mulher até então era propriedade do seu pai e depois de seu marido.
Foi assim que a sociedade funcionou até o momento que o mercado necessitou que a mulher saísse do lar para trabalhar produzindo coisas. Nesse momento ela se distancia do seu "proprietário", que justificava a propriedade porque ele era o provedor, e se equipara a ele, sendo também provedora.
Ocorre que ainda que uma mulher e um homem trabalhem numa fábrica as mesmas 16 horas por dia, produzindo a mesma coisa, ela vale menos que um homem. Por que, se no fim das contas elas estão fazendo a mesma coisa? Provavelmente o dono da fábrica pensou "é um objeto de trabalho com defeito, pois engravida, pois menstrua e o homem não tem isso, pode trabalhar sem que haja nenhum tipo de interrupção." 
Há quem ache esse pensamento justo. Se uma mulher tem diferenças biológicas que a afastam do trabalho eventualmente, logo ela vale menos.
Sabe, essas diferenças biológicas não foram escolhidas por nós, mulheres. Antes pudéssemos escolher. E quem usa desse argumento está se apoiando numa possibilidade. Se a mulher engravidar, se a mulher precisar se ausentar por causa de uma menstruação. A mulher ganha menos, vale menos como instrumento de trabalho por causa de "Se"s. 
Isso sem contar que se pode dizer que a mulher, ciente da sua necessidade de se manter no mercado de trabalho, se adaptou, adaptou a sua natureza, sua biologia, qualquer coisa que poderia contar contra ela, para se manter no mercado.
Num ambiente fabril em plena Revolução Industrial, todos eram objetos. Mas o que é o objeto de um objeto? Um objeto de menor valor. É essa visão de que a mulher não foi feita para mais nada a não ser para o lar, mas que está no mercado por necessidade e que por isso, tudo fará pior (já que não nasceu para isso) que está por trás dos argumentos da época para justificar o fato de uma mulher ganhar menos.
Então, vamos dar um pulo para os dias atuais. A mulher se capacitou tanto, demonstrou tanto que no fim das contas as diferenças biológicas são tão irrelevantes a ponto de que qualquer trabalho que antes era inimaginável uma mulher fazer, ela faz sem grandes problemas, que ela está ligeiramente em pé de igualdade. Ligeiramente porque exatamente iguais, ainda não. A questão é: por que a mulher continua ganhando menos? Pesquisas apontam que uma mulher ganha cerca de 40% a menos que um homem no mesmo cargo. Por quê? Porque um dia ela pode casar e ficar grávida? Isso faz dela um ser menos capaz? Não me parece coerente.
A única coisa que deve justificar essa diferença salarial é se for comprovado que uma mulher tem um rendimento menor do que de um homem. Fora isso, é machismo.
Esta é uma realidade escondida, que ninguém repara muito, a não ser um questionador. E o problema do machismo é que se antigamente ele era norma social e por isso era escancarado, hoje, por ser politicamente incorreto, ele se esconde em lugares que só alguém que procure vá ver.
Outra forma de machismo incrivelmente inteligente que se esconde de qualquer mente desatenta. E essa merece uma reflexão bem profunda, porque envolve construção social.
Tudo que envolve construção social é difícil de racionalizar. Isso porque quando algo é social, fica muito difícil de desconstruir. E desconstrução é, inclusive, a palavra da moda. Oras, se você nasceu, cresceu e se desenvolveu numa determinada sociedade, tudo o que você sabe, tudo o que você entende, todos os seus valores e conceitos, vão vim dessa sociedade. Não é impossível, mas é muito difícil mudar qualquer coisa num indivíduo que foi a sociedade que o ensinou.
A nossa sociedade nos ensinou a mesma coisa lá do patriarcado, só que de uma forma mais sofisticada: a mulher é um objeto. E não um objeto qualquer, mas um objeto de consumo, de desejo, requintado, refinado. Bom, algumas mulheres são objetos bem melhores do que outras, então valem mais, como qualquer mercadoria. E isso, me desculpem, é puro machismo.
É complicado fazer entender que por trás do "essa mulher é muito gostosa e eu faria ou daria tudo para ficar com ela" e do "nossa, ninguém quer essa mulher feia", está a ideia de que a mulher não é um ser humano, assim como o homem, ela é um objeto de consumo. Quanto mais atributos ela tiver, mais ela vale (e isso está cada vez mais mercado mesmo).
Por esta razão produtos direcionados à homens colocam mulheres valiosas do lado, para agregar valor. O mesmo não acontece com um produto direcionado à mulheres. Colocam mulheres valiosas também! Sim, porque tanto o homem como a mulher consomem o produto "mulher". O homem a usa para fins sexuais ou para demonstrar o quanto tem de dinheiro. A mulher usa para ter um modelo de como valer mais.
Se isso é passível de solução, eu juro que não sei. Mas como mulher, isso me deixa arrasada. Eu adoro cultivar minha aparência, gosto de olhar no espelho e reconhecer traços do que me ensinaram que é belo. Mas eu odeio o temor de um dia valer menos só porque não estarei com o mesmo rosto e o mesmo corpo, odeio o medo de o meu homem pesar melhor e ver que outra vale mais. Odeio ser tratada como uma coisa que se não estiver desesperadamente correndo para preservar valor no mercado, vai sair de circulação. Isso não é ser tratada como humano.
Muitos homens dirão que isso é exagero, mas são esses homens que dizem que toda feminista só é feminista, só luta pelos direitos das mulheres, porque são feias e não teve alguém que as quisesse consumir. São um monte de mercadoria sem valor e por isso estão reclamando, para ver se criam do nada valor para si mesmas.
Em compensação, não há razão para confundir falta de higiene, de zelo pelo próprio corpo, de vaidade com justificativa, achar que se cuidar é invariavelmente uma forma de se manter como uma mercadoria melhor.
Eu acredito que o amor próprio começa no espelho. Quando você se olha e gosta daquilo que vê, não quando aprende a gostar do que vê, isso se torna mais importante do que qualquer valor que os outros possam lhe dar. Muitas "cartilhas" feministas dizem que se maquiar, usar salto, se depilar, é tudo para o consumo do homem. Pode ser, mas é para o meu consumo próprio também. Me responderão que é porque eu fui ensinada a isso, desde sempre. Com certeza estarão certas. Mas a questão é: vamos supor que desconstruir não fosse uma tarefa realmente muito difícil e complexa, e desconstruíssemos tudo. O que ficaria no lugar? Ficaria no lugar algo que alguém construiria. Por mais que as pessoas se adaptem, elas sempre vão seguir um modelo. E qual o modelo que a feminista emponderada quer que fique no lugar do atual? O que seria para ela se cuidar para si, levar em conta somente a própria vaidade? Ou não há vaidade na mulher, isso é uma invenção masculina? Porque eu discordo isso. Vaidade é, na minha opinião, algo intrínseco ao ser humano. Talvez o exagero e a obsessão feminina por isso é que seja uma invenção masculina.
Para resumir, como feminista eu quero me cuidar para ser consumida por mim mesma, para meu próprio deleite em primeiro lugar. E para o deleite daquele (ou daquela) a quem eu entregar minha afeição e meu interesse sexual. Porque se uma mulher se faz bela para satisfazer as expectativas de uma outra mulher, sua amante, é ou não é machismo? Acredito que não seja machismo, como não é querer ser atraente para pessoas específicas, com o limite do respeito a si mesma.
 

Sobre a vida e suas sagas

Recentemente eu resolvi ficar ruiva. Não parecia algo muito pensado, e sim feito no impulso. Não ponderei os cuidados que teria que ter com o cabelo, como as pessoas me veriam dali a diante, como eu me veria. Mas segui um impulso, e fiz. Em menos de 1h eu estava ruiva. 
Numa semana de tropeços eu fui me adaptando à ruivice. Acabei descobrindo um mundo onde muitas mulheres dão esses tropeços todos os dias em busca do "ruivo perfeito", algumas já têm prática o suficiente para nem o menos titubear, algumas já alcançaram o sonho acobreado e estão ali para ensinar ou apenas para mostrar ao mundo, com bastante orgulho, sua conquista.
O que percebi em todas as histórias é que elas não são curtas. E é aí que entra uma expressão comum neste mundo que me interessou muito: a saga ruiva. Todas as garotas passaram pela saga ruiva, usando várias tonalidades, indo ao salão várias vezes ou testando em casa mesmo, com todos os riscos que isso acompanha. Até chegar naquilo que queriam, naquilo que sonhavam.
No que isto é relevante? Oras, depende de para quem, tem toda a relevância do mundo. A pergunta certa é, o que eu quero dizer com isso tudo? 
Curioso como me tornar ruiva e me juntar à um grupo de garotas que estão ruivas me ensinou uma coisa óbvia sobre a vida que eu nunca pensei antes. Ou se pensei, reprimi. Afinal, não é a ideia mais confortável do mundo.
Tudo na vida é uma saga. Por mais que as pessoas tenham me repetido isso a vida inteira, de diversas formas, foi com a "saga ruiva" que eu entendi. 
Fico pensando na palavra saga. Me dá a impressão de algo árduo, complexo, longo, doloroso. Tentar e tentar e tentar, quantas vezes for preciso, com calma e paciência, até que um dia acontece.
Minha saga ruiva foi breve, coisa de uma semana. Não me vejo testando cores e nuances. Estou me adaptando ainda ao ruivo que me foi dado, mas não pretendo sair lutando por outro. E isso dá por muitos motivos, mas principalmente porque eu não tenho paciência. É por esta razão que em 28 anos me neguei a ver que tudo na vida são sagas, uma atrás da outra. A saga para se formar num curso superior, a saga para encontrar um emprego, a saga para manter um bom relacionamento amoroso, a saga para lidar com os problemas familiares. A saga contra minha depressão. Se eu tivesse visto tudo isso como saga, desde o começo, talvez a realidade hoje fosse totalmente diferente.
Eu sempre dizia a mim mesma que não lutava em sagas por determinada coisa porque as coisas eram escolhidas para mim, não por mim. Não estava sendo completamente falsa nesse argumento. De fato eu nunca parei e pensei no que eu realmente gostaria de ser, ou de fazer, ou de sentir. Eu nunca tive paciência para isso, sempre deixava à cargo de outra pessoa decidir. E quando outra pessoa decidia eu passava a achar que não valia a pena, pois a pessoa tinha escolhido pensando em si, não em mim e em minhas necessidades.
Mas Deus me deu exatamente aquilo que pedi. Algo para querer muito, algo que merece uma saga. E esta saga, para chegar naquilo que eu, só eu almejo, se estende por tudo na minha vida. Por família, por relacionamento, por saúde, por vida financeira. Eu preciso acordar, me colocar de pé, esticar minha alma que viveu inquieta, mas sem se mover par lugar algum, e fazer tudo que está sob meu alcance, para alcançar meu objetivo.
Uma saga tem muitas partes e obviamente eu preciso começar pela primeira. Mas eu tenho medo até mesmo de olhar a saga, antes de começá-la, como se no momento que eu souber o que tem que ser feito, já estarei envolvida, e uma vez envolvida, minha vida não será mais de um descanso triste, pesaroso e angustiado, será de trabalho, de tentativas, erros, frustrações e novas tentativas.
Não sei se tenho medo do trabalho em si ou das frustrações. Se for do trabalho, sou uma grande imbecil que não merece nada na vida. Mas o que sei de mim é que quando eu trabalho e vejo resultados, fico obcecada por aquilo. E trabalhar se transforma num prazer insano. Então sim, eu mereço tudo na vida. Mas eu odeio as frustrações. Nossa, como eu as odeio! São sempre elas que me fazem desistir. É essa perseverança que me falta, esse olhar de que mesmo que minha tentativa tenha sido em vão, nada mudou, é hora de começar tudo de novo, e tentar mais, e melhor. Porque é uma saga. Ninguém disse que na primeira tentativa tudo será como eu sempre sonhei, porque esse não é o conceito de saga.
Preciso parar de ter medo das frustrações e preciso aprender a lidar com elas, a ignorá-las como fator limitante e, ao contrário, utilizá-las ao meu favor, ver nelas os meus erros para que futuramente eu não precise mais cometê-los. 
Eu preciso começar a viver a minha saga, ao invés de me esconder dela.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Sobre as dores imaginárias

Sempre achei que escrever era uma oportunidade de organizar meus pensamentos, planificá-los. Mas ultimamente eu posso até ter feito bons textos, mas eles não foram o suficiente para eu ver melhor as coisas que estão acontecendo e o que eu estou sentindo.
Primeiramente, sempre tenho esse medo de estar sendo vigiada, ou de ser um dia. Infelizmente as pessoas preferem caçar escritos sobre mim como se eu fosse um ser extinto. Elas preferem isso do que simplesmente olhar para mim, se desfazerem de suas armas e realmente perguntar como estou. Mas eu sei que é uma cilada, qualquer resposta errada e elas me torturam por muito tempo.
Eu não estou confusa, essa é a novidade. O mais interessante com o passar dos anos é que eu consigo ver nitidamente minha evolução. De alguma forma eu consegui perceber - para a tristeza de alguns - que no fim das contas somos somente uma bolsa de sangue, carne e ossos que um dia será pó. Todas as grandes mazelas emocionais podem até doer, mas são, em todo caso, imaginárias. Compreendendo isso dentro de mim, um peso enorme me foi tirado dos ombros. Percebei que de nada vale os desesperos que desprendi ao longo desses anos para coisas que só existiam porque eu queria que elas existissem, porque eu permitia e escolhia a existência delas. Bem, hoje eu escolho que elas não existam.
Mas as pessoas são completamente diferentes. Elas imaginam coisas em cada palavra, em cada olhar e escolhem para si todo tipo de dores e incômodos que não existem senão em suas mentes. Umas têm até um ponto inicial justo, como problemas financeiros. Isso é um problema real, isso é algo que pode interferir de fato no equilíbrio das coisas que realmente existem. Mas daí elas abrangem para coisas que não estão ali e no fim das contas, acabam imaginando demais e duplicando a dor que poderia já ser grande o suficiente para incomodar.
Outras pessoas não. Estas se agarram até com a alma em problemas criados do nada, fantasiosos desde o seu cerne, e estão sempre lutando com quem imagina ser seu inimigo. Como Dom Quixote, do mal, já que não há nada de risível quando se está no meio desse turbilhão gerado pela imaginação de outra pessoa que só vê guerra.
Depois de anos travando guerras dentro de mim, hoje, em relativa paz, eu não consigo entender por que as pessoas sempre preferem à guerra em seu dia a dia. Elas têm a opção, mas é como se houvesse aí um prazer bestial de duelar, de usar seus instintos de briga, de rinha. Para as pessoas com quem eu convivo nada nunca está bom, é sempre preciso revolucionar através da guerra.
Não me considero acomodada por não querer tantas revoluções em tão pouco tempo. Só aprendi que a vida já causa suas revoluções sozinha, e normalmente essas merecem todo o nosso fôlego, então não adianta perdê-lo com guerras que só existem porque você quer que elas existam. Quando a vida quer - e ela sempre quer - ela nos dá um soco certeiro no estômago, nos esmurra o maxilar logo em seguida e nos convoca para a briga, e não temos como fugir. Nesse momento precisaremos de todas as forças que há em nós para revidar e ganhar as inúmeras batalhas que nos foram preparadas. E a vida não quer saber se você está cansado de tanto lutar por outras coisas, ela vai continuar batendo do mesmo jeito.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Eu e a culpa

Eu cometi muitos erros na vida, isso é bastante óbvio. Só que eu tenho uma relação estranha com meus erros, e uma relação ainda mais estranha com a culpa.
Quando eu cometo um erro, eu não me sinto culpada, apenas sofro com as consequências. Consequências são capazes de me torturar por anos,mas culpa mesmo, eu não sinto. Em compensação sinto uma culpa profunda, venenosa e corrosiva pelas coisas mais banais, que muitas vezes nem foram feitas por mim.
Por toda a minha vida meu dia a dia foi permeado de culpa que me paralisava, me deixava em pânico, adoecia meu corpo e minha mente. Mas com esses anos convivendo com a culpa, eu aprendi uma preciosa lição: a culpa é completamente inútil. Se você fez algo de errado, sentir culpa não anula seu mau passo, sua ação ruim. O melhor que pode ser feito é não fazer novamente. E se não há razão para culpa, se a culpa tem a ver somente com a forma que outra ou outras pessoas vêem aquele ato, então menos sentido ainda em se sentir consumido pela culpa.
Eu ainda sinto culpa, geralmente por coisas pequenas, por não conseguir fazer todas as pessoas ao meu lado, ao mesmo tempo, felizes. E eu sei que isso é pura bobagem porque claramente essas pessoas fazem a escolha pela infelicidade todos os dias. É, portanto, absurdo, que eu me sinta culpada seja lá do que for.
Certa vez um médium me disse que eu sentia culpa porque tinha feito algo de terrível com alguém no passado, numa outra vida, e que esse grande erro, juntamente com o espírito que feri, me assombravam. Isso foi até eu racionalizar a culpa e passar não sentí-la mais.
Mas então ficou o vazio, que não consigo racionalizar. Estou sempre sentindo falta de algo. E eu não gosto de escrever sobre isso, porque é uma parte de mim que está sob uma sombra densa demais para que eu possa investigar sem cair no chão.