quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Por que eu sou feminista? [Eu sou feminista?] - Parte 1

Fui grosseiramente rotulada de feminista. Não que isso seja uma ofensa, mas é que não só nunca havia me visto como uma, como tudo que faço se afasta muito dos ideais feministas da nossa época. Não sou, nem de longe, o que chamam de emponderada.
Mas que eu não sou feminista de modo algum também seria uma inverdade. Tenho inúmeros pensamentos e linhas de raciocínio que são coerentes com o ideal feminista. Tentei me imaginar, talvez, como uma feminista moderada, mas não acho que seja bem por aí. Porque não acredito que feminismo seja uma religião, ou você segue todos os dogmas sem pestanejar, sendo assim um extremista, ou você segue os dogmas que mais se encaixam na sua realidade, fazendo de você um moderado. Feminismo é, além de uma ideologia, a reflexão sobre várias situações em que a mulher passou e passa, e o estudo dessas situações sob uma ótica racional, não apenas automática por ser lgo social.
Logo, quando eu digo que sou feminista, quero dizer que eu reflito sobre uma série de coisas que envolvem a mulher, racionalizo essa reflexão e tiro conclusões mais acertas e ponderadas possível.
Resumindo, eu quero ser uma cientista sobre questões que envolvem a mulher, ao invés de me doar à um fanatismo histérico em que mulheres, sem olhar de forma global as coisas que acontecem, acabam diminuindo a credibilidade do movimento diante da sociedade, que as escarnece. Elas podem se achar mártires do feminismo, mas estão ajudando a construir uma imagem totalmente deturpada da causa.
Primeiramente, o tema que eu gostaria de esmiuçar é o da mulher como objeto, porque eu acredito, pelo menos agora, que este é o cerne da questão.
Desde que a Humanidade saiu do sistema de matriarcado e foi para o patriarcado, que a mulher passou a ser vista como objeto. Um objeto qualquer, como qualquer outro. Vendidas, trocadas, alienadas, prometidas, enfim. E como objeto, obviamente, não tinham absolutamente nenhuma opinião a ser levada em conta. Objetos são propriedade de alguém, e a mulher até então era propriedade do seu pai e depois de seu marido.
Foi assim que a sociedade funcionou até o momento que o mercado necessitou que a mulher saísse do lar para trabalhar produzindo coisas. Nesse momento ela se distancia do seu "proprietário", que justificava a propriedade porque ele era o provedor, e se equipara a ele, sendo também provedora.
Ocorre que ainda que uma mulher e um homem trabalhem numa fábrica as mesmas 16 horas por dia, produzindo a mesma coisa, ela vale menos que um homem. Por que, se no fim das contas elas estão fazendo a mesma coisa? Provavelmente o dono da fábrica pensou "é um objeto de trabalho com defeito, pois engravida, pois menstrua e o homem não tem isso, pode trabalhar sem que haja nenhum tipo de interrupção." 
Há quem ache esse pensamento justo. Se uma mulher tem diferenças biológicas que a afastam do trabalho eventualmente, logo ela vale menos.
Sabe, essas diferenças biológicas não foram escolhidas por nós, mulheres. Antes pudéssemos escolher. E quem usa desse argumento está se apoiando numa possibilidade. Se a mulher engravidar, se a mulher precisar se ausentar por causa de uma menstruação. A mulher ganha menos, vale menos como instrumento de trabalho por causa de "Se"s. 
Isso sem contar que se pode dizer que a mulher, ciente da sua necessidade de se manter no mercado de trabalho, se adaptou, adaptou a sua natureza, sua biologia, qualquer coisa que poderia contar contra ela, para se manter no mercado.
Num ambiente fabril em plena Revolução Industrial, todos eram objetos. Mas o que é o objeto de um objeto? Um objeto de menor valor. É essa visão de que a mulher não foi feita para mais nada a não ser para o lar, mas que está no mercado por necessidade e que por isso, tudo fará pior (já que não nasceu para isso) que está por trás dos argumentos da época para justificar o fato de uma mulher ganhar menos.
Então, vamos dar um pulo para os dias atuais. A mulher se capacitou tanto, demonstrou tanto que no fim das contas as diferenças biológicas são tão irrelevantes a ponto de que qualquer trabalho que antes era inimaginável uma mulher fazer, ela faz sem grandes problemas, que ela está ligeiramente em pé de igualdade. Ligeiramente porque exatamente iguais, ainda não. A questão é: por que a mulher continua ganhando menos? Pesquisas apontam que uma mulher ganha cerca de 40% a menos que um homem no mesmo cargo. Por quê? Porque um dia ela pode casar e ficar grávida? Isso faz dela um ser menos capaz? Não me parece coerente.
A única coisa que deve justificar essa diferença salarial é se for comprovado que uma mulher tem um rendimento menor do que de um homem. Fora isso, é machismo.
Esta é uma realidade escondida, que ninguém repara muito, a não ser um questionador. E o problema do machismo é que se antigamente ele era norma social e por isso era escancarado, hoje, por ser politicamente incorreto, ele se esconde em lugares que só alguém que procure vá ver.
Outra forma de machismo incrivelmente inteligente que se esconde de qualquer mente desatenta. E essa merece uma reflexão bem profunda, porque envolve construção social.
Tudo que envolve construção social é difícil de racionalizar. Isso porque quando algo é social, fica muito difícil de desconstruir. E desconstrução é, inclusive, a palavra da moda. Oras, se você nasceu, cresceu e se desenvolveu numa determinada sociedade, tudo o que você sabe, tudo o que você entende, todos os seus valores e conceitos, vão vim dessa sociedade. Não é impossível, mas é muito difícil mudar qualquer coisa num indivíduo que foi a sociedade que o ensinou.
A nossa sociedade nos ensinou a mesma coisa lá do patriarcado, só que de uma forma mais sofisticada: a mulher é um objeto. E não um objeto qualquer, mas um objeto de consumo, de desejo, requintado, refinado. Bom, algumas mulheres são objetos bem melhores do que outras, então valem mais, como qualquer mercadoria. E isso, me desculpem, é puro machismo.
É complicado fazer entender que por trás do "essa mulher é muito gostosa e eu faria ou daria tudo para ficar com ela" e do "nossa, ninguém quer essa mulher feia", está a ideia de que a mulher não é um ser humano, assim como o homem, ela é um objeto de consumo. Quanto mais atributos ela tiver, mais ela vale (e isso está cada vez mais mercado mesmo).
Por esta razão produtos direcionados à homens colocam mulheres valiosas do lado, para agregar valor. O mesmo não acontece com um produto direcionado à mulheres. Colocam mulheres valiosas também! Sim, porque tanto o homem como a mulher consomem o produto "mulher". O homem a usa para fins sexuais ou para demonstrar o quanto tem de dinheiro. A mulher usa para ter um modelo de como valer mais.
Se isso é passível de solução, eu juro que não sei. Mas como mulher, isso me deixa arrasada. Eu adoro cultivar minha aparência, gosto de olhar no espelho e reconhecer traços do que me ensinaram que é belo. Mas eu odeio o temor de um dia valer menos só porque não estarei com o mesmo rosto e o mesmo corpo, odeio o medo de o meu homem pesar melhor e ver que outra vale mais. Odeio ser tratada como uma coisa que se não estiver desesperadamente correndo para preservar valor no mercado, vai sair de circulação. Isso não é ser tratada como humano.
Muitos homens dirão que isso é exagero, mas são esses homens que dizem que toda feminista só é feminista, só luta pelos direitos das mulheres, porque são feias e não teve alguém que as quisesse consumir. São um monte de mercadoria sem valor e por isso estão reclamando, para ver se criam do nada valor para si mesmas.
Em compensação, não há razão para confundir falta de higiene, de zelo pelo próprio corpo, de vaidade com justificativa, achar que se cuidar é invariavelmente uma forma de se manter como uma mercadoria melhor.
Eu acredito que o amor próprio começa no espelho. Quando você se olha e gosta daquilo que vê, não quando aprende a gostar do que vê, isso se torna mais importante do que qualquer valor que os outros possam lhe dar. Muitas "cartilhas" feministas dizem que se maquiar, usar salto, se depilar, é tudo para o consumo do homem. Pode ser, mas é para o meu consumo próprio também. Me responderão que é porque eu fui ensinada a isso, desde sempre. Com certeza estarão certas. Mas a questão é: vamos supor que desconstruir não fosse uma tarefa realmente muito difícil e complexa, e desconstruíssemos tudo. O que ficaria no lugar? Ficaria no lugar algo que alguém construiria. Por mais que as pessoas se adaptem, elas sempre vão seguir um modelo. E qual o modelo que a feminista emponderada quer que fique no lugar do atual? O que seria para ela se cuidar para si, levar em conta somente a própria vaidade? Ou não há vaidade na mulher, isso é uma invenção masculina? Porque eu discordo isso. Vaidade é, na minha opinião, algo intrínseco ao ser humano. Talvez o exagero e a obsessão feminina por isso é que seja uma invenção masculina.
Para resumir, como feminista eu quero me cuidar para ser consumida por mim mesma, para meu próprio deleite em primeiro lugar. E para o deleite daquele (ou daquela) a quem eu entregar minha afeição e meu interesse sexual. Porque se uma mulher se faz bela para satisfazer as expectativas de uma outra mulher, sua amante, é ou não é machismo? Acredito que não seja machismo, como não é querer ser atraente para pessoas específicas, com o limite do respeito a si mesma.
 

Sobre a vida e suas sagas

Recentemente eu resolvi ficar ruiva. Não parecia algo muito pensado, e sim feito no impulso. Não ponderei os cuidados que teria que ter com o cabelo, como as pessoas me veriam dali a diante, como eu me veria. Mas segui um impulso, e fiz. Em menos de 1h eu estava ruiva. 
Numa semana de tropeços eu fui me adaptando à ruivice. Acabei descobrindo um mundo onde muitas mulheres dão esses tropeços todos os dias em busca do "ruivo perfeito", algumas já têm prática o suficiente para nem o menos titubear, algumas já alcançaram o sonho acobreado e estão ali para ensinar ou apenas para mostrar ao mundo, com bastante orgulho, sua conquista.
O que percebi em todas as histórias é que elas não são curtas. E é aí que entra uma expressão comum neste mundo que me interessou muito: a saga ruiva. Todas as garotas passaram pela saga ruiva, usando várias tonalidades, indo ao salão várias vezes ou testando em casa mesmo, com todos os riscos que isso acompanha. Até chegar naquilo que queriam, naquilo que sonhavam.
No que isto é relevante? Oras, depende de para quem, tem toda a relevância do mundo. A pergunta certa é, o que eu quero dizer com isso tudo? 
Curioso como me tornar ruiva e me juntar à um grupo de garotas que estão ruivas me ensinou uma coisa óbvia sobre a vida que eu nunca pensei antes. Ou se pensei, reprimi. Afinal, não é a ideia mais confortável do mundo.
Tudo na vida é uma saga. Por mais que as pessoas tenham me repetido isso a vida inteira, de diversas formas, foi com a "saga ruiva" que eu entendi. 
Fico pensando na palavra saga. Me dá a impressão de algo árduo, complexo, longo, doloroso. Tentar e tentar e tentar, quantas vezes for preciso, com calma e paciência, até que um dia acontece.
Minha saga ruiva foi breve, coisa de uma semana. Não me vejo testando cores e nuances. Estou me adaptando ainda ao ruivo que me foi dado, mas não pretendo sair lutando por outro. E isso dá por muitos motivos, mas principalmente porque eu não tenho paciência. É por esta razão que em 28 anos me neguei a ver que tudo na vida são sagas, uma atrás da outra. A saga para se formar num curso superior, a saga para encontrar um emprego, a saga para manter um bom relacionamento amoroso, a saga para lidar com os problemas familiares. A saga contra minha depressão. Se eu tivesse visto tudo isso como saga, desde o começo, talvez a realidade hoje fosse totalmente diferente.
Eu sempre dizia a mim mesma que não lutava em sagas por determinada coisa porque as coisas eram escolhidas para mim, não por mim. Não estava sendo completamente falsa nesse argumento. De fato eu nunca parei e pensei no que eu realmente gostaria de ser, ou de fazer, ou de sentir. Eu nunca tive paciência para isso, sempre deixava à cargo de outra pessoa decidir. E quando outra pessoa decidia eu passava a achar que não valia a pena, pois a pessoa tinha escolhido pensando em si, não em mim e em minhas necessidades.
Mas Deus me deu exatamente aquilo que pedi. Algo para querer muito, algo que merece uma saga. E esta saga, para chegar naquilo que eu, só eu almejo, se estende por tudo na minha vida. Por família, por relacionamento, por saúde, por vida financeira. Eu preciso acordar, me colocar de pé, esticar minha alma que viveu inquieta, mas sem se mover par lugar algum, e fazer tudo que está sob meu alcance, para alcançar meu objetivo.
Uma saga tem muitas partes e obviamente eu preciso começar pela primeira. Mas eu tenho medo até mesmo de olhar a saga, antes de começá-la, como se no momento que eu souber o que tem que ser feito, já estarei envolvida, e uma vez envolvida, minha vida não será mais de um descanso triste, pesaroso e angustiado, será de trabalho, de tentativas, erros, frustrações e novas tentativas.
Não sei se tenho medo do trabalho em si ou das frustrações. Se for do trabalho, sou uma grande imbecil que não merece nada na vida. Mas o que sei de mim é que quando eu trabalho e vejo resultados, fico obcecada por aquilo. E trabalhar se transforma num prazer insano. Então sim, eu mereço tudo na vida. Mas eu odeio as frustrações. Nossa, como eu as odeio! São sempre elas que me fazem desistir. É essa perseverança que me falta, esse olhar de que mesmo que minha tentativa tenha sido em vão, nada mudou, é hora de começar tudo de novo, e tentar mais, e melhor. Porque é uma saga. Ninguém disse que na primeira tentativa tudo será como eu sempre sonhei, porque esse não é o conceito de saga.
Preciso parar de ter medo das frustrações e preciso aprender a lidar com elas, a ignorá-las como fator limitante e, ao contrário, utilizá-las ao meu favor, ver nelas os meus erros para que futuramente eu não precise mais cometê-los. 
Eu preciso começar a viver a minha saga, ao invés de me esconder dela.