segunda-feira, 20 de março de 2017

É difícil estar numa crise de criatividade. Não sei bem nem se esse é o nome, já que sempre que eu escrevi não criei mesmo alguma coisa, sempre foram desabafos ou pensamentos meus. Mas de qualquer forma, me falta até mesmo isso. É difícil porque eu sempre encontrei no ato de escrever um conforto e até uma sensação de prazer, de satisfação, de gozo. Isso ser tirado de mim sem motivo me é estranho e injusto.

Me recordo que houve época em que eu escrevia freneticamente, sobre tudo, o tempo todo. Acumulei dezenas de cadernos contendo todo tipo de sensação juvenil, todo tipo de mágoa de berço, todo tipo de descoberta que uma pessoa muito jovem pode fazer. Mas sempre existiram olhos ávidos, curiosos e maliciosos que caçavam meus escritos para usá-los contra mim. Cheguei a montar esconderijos, a escrever em códigos, até que cansei desse esforço e apenas deixei de escrever. As pessoas que tanto procuravam, fuçavam até o subsolo se fosse necessário para achar algo meu, então o melhor era não ter mais o que eles achassem.

Então se passaram alguns anos. Deixei de escrever e quando eu pensava em pegar uma caneta e um papel, pensava em quem poderia ler aquilo. Desistia. Hoje me sinto um pouco mais livre para poder escrever, não necessariamente o que eu bem entender, mas alguma coisa, e então travou tudo. Me desacostumei a ver na escrita um escape. Na verdade, na linguagem no geral, já que não consigo sequer falar com quem quer que seja sobre o que penso e como me sinto.

Tem sido difícil mesmo, porque tenho para mim que desaprendi a me comunicar. Nunca consigo ser clara com as pessoas que estão ao meu redor, sempre falo coisas dúbias, não consigo organizar o que penso sobre determinadas coisas, ou organizar argumentos e usá-los. Dou informações erradas, falo palavras que eu não queria falar, que as vezes são exatamente o oposto daquilo que pensei em falar. 

Conheço algumas pessoas que não fazem valer o ditado de que comunicação é tudo. Minha mãe por exemplo não escuta nada que não seja dito pelos demônios interiores dela. Quanto à Johnny eu não sei dizer com certeza. A maior parte das vezes que conversamos sobre algo tenho a impressão de que ele não quer conversar, ele só quer alguém sobre quem ele vai demonstrar que está correto. Mas e se for o caso de eu não estar sabendo dizer a ele o que penso sobre as coisas que discutimos? E se o caso for de que eu não estou sabendo me fazer entender?

Comunicação será meu instrumento de trabalho daqui por diante. Por toda a minha vida minha tarefa principal será me comunicar com pessoas, ouvir o que elas têm a dizer e dizer a elas coisas que ajudem. Tendo essa falha, como vou poder executar meu trabalho?

E isso não é apenas um problema profissional ou de relacionamento com o outro. Eu sinto falta de me entender, de me compreender, de falar comigo mesma e entender.

A quase um ano atrás eu passei por um rompimento. Uma pessoa fazia parte de todos os meus dias e de quase todos os departamentos da minha vida. Sempre acreditei que nunca nutri por ela nenhum tipo de paixão romântica que fizesse o rompimento ser um imenso trauma (como já foi com outra pessoa, em outro momento). Na verdade planejei tanto nosso afastamento que no primeiro momento, não estranhei que ela não estivesse mais ali. Até que eu senti falta de conversar com ela. Seria uma paixão romântica surgindo tardiamente?

Pensei muito se esse era o caso. Até que eu tentei voltar aos momentos que passamos juntos para entender a razão de estar sentindo falta deles agora. A resposta nunca é simples, mas tem uma linha principal. E a linha principal era que eu não tinha medo das consequências do que eu falava para ela. Por isso, eu falava sem grandes travas e isso servia como um escape. Ela não era um psicólogo, na verdade nem era muito esperta para entender as coisas que eu dizia, mas eu não precisava ter medo de dizer. Muitas vezes ela nem sequer prestava atenção, se enfadava, se entediava, mudava de assunto, mas nunca me punia pelas coisas que eu dizia.

Hoje em dia tudo tem que ser bem medido e bem pesado antes de sair da minha boca. Na grande maioria das vezes, mesmo com todo o cuidado, eu falo o que não devo e sou punida por isso. Eu já vivi essa censura quando escrevia, agora eu a vivo quando falo. E assim como a censura atrofiou minha capacidade de escrever, está atrofiando minha capacidade de falar.

Então mesmo quando eu deveria me sentir segura para falar, como numa sessão de terapia, eu não sei como falar. Não encontro mais conforto na fala, não consigo mais falar abertamente. Fico pensando se eu é que sou azarada por estar sempre perto de pessoas que me tolhem direitos básicos como o da comunicação ou se eu estou cometendo um erro repetidamente com as pessoas ao meu redor, permitindo que elas me censurem. É uma questão que exige reflexão.

Sinto muito que as pessoas estejam sempre muito preocupadas com o que os atos e palavras signifiquem de imediato e em sua superficialidade. Ninguém se questiona o que realmente aquele ato ou aquela palavra quer realmente dizer, ninguém quer se aprofundar em ninguém, nem mesmo nas pessoas com quem convive. E esse será meu trabalho, só que com estranhos. E sempre será um estranho que se importará em fazer o mesmo por mim. É triste que as coisas pareçam sempre em preto-e-branco quando é óbvio que as nuances são infinitas. Por isso as pessoas passam 50 anos juntas e no entanto não se conhecem. Reconhecem hábitos e movimentos automáticos que qualquer um que tivesse tempo o suficiente para observar saberia. Mas não conhece a fundo o que a pessoa pensa, como ela se sente, por que ela pensa ou sente seja lá o que for. Isso sempre será o trabalho de um estranho, e isso é uma pena. Porque o estranho estará ali por dinheiro, na melhor das hipóteses para ajudar um tráfego de informações tentando desafogar apenas uma via, quando na verdade existe milhares delas. Cada pessoa com quem o paciente convive e se comunica é uma via pela qual ele recebe informações e estímulos que vão fazer dele uma pessoa melhor ou pior, mais completa ou mais vazia, mais feliz ou mais insatisfeita. Eu não acho que a solução seja meramente treinar o paciente para se conformar com o fato de que os outros simplesmente não o compreenderão e que ele tem que aprender sozinho a lidar com essa frustração e essa solidão no meio da multidão.

Eu dizer para um estranho como eu me sinto em relação aos atos de uma pessoa na minha vida vai mudar talvez como eu lido com esse sentimento, mas na verdade o importante seria mudar os atos dessa pessoa, caso eles sejam realmente nocivos. Acredito que todas as pessoas deviam tentar se conectar profundamente ao menos com as pessoas que amam, com as pessoas com quem se importam. Ouvir sem medo, sem julgamentos, tentar entender antes de se ofender, tentar ir à raiz das coisas, deixar a pessoa falar tudo que está dentro de si para depois analisar junto com ela, isso é conhecer uma pessoa de verdade. Isso é um real esforço de ser feliz com esta pessoa.

Mas isso é uma utopia. Todas as pessoas precisariam ser formadas em Psicologia para isso, além do que é sabido que mesmo na Psicologia, o terapeuta precisa invariavelmente manter uma boa distância do seu paciente. Qualquer aproximação compromete todo o processo.

E cá estou, tentando me conformar com a frustração de ter que viver só ao lado das pessoas que amo e encontrar companhia nos ouvidos de um estranho. As coisas parecem terrivelmente erradas. 
Houve uma época em que minha vida parecia extremamente emocionante. Isso porque dentro de mim estava sempre acontecendo um intenso furacão de dúvidas, desejos, frustrações, mágoas, euforia, tudo ao mesmo tempo. Há algum tempo isso se acalmou e desde então nada acontece dentro de mim. Obviamente que fora acontece. O cotidiano é vivo, coisas acontecem o tempo inteiro. Só que dentro de mim as coisas pararam. Vez ou outra algo acontece e está a ponto de me afetar, mas então simplesmente não me afeta. 

Isso realmente me deu um tempo de paz interior o qual eu estava precisando há muito tempo. Mas e se for sempre assim? Será que eu gosto da nova Laura, que não se abala facilmente, que nem percebe ao certo quando coisas boas e ruins acontecem? Onde está a antiga Laura e o turbilhão de sentimentos que geralmente a acompanhava? Porque ela certamente não desapareceu, deve estar escondida ou adormecida, não sei. É bom saber disso antes que seja tarde demais e ela reapareça de surpresa, deixando tudo uma completa bagunça.

Minha vida no geral tem tido algumas dificuldades operacionais. Falta de dinheiro, basicamente. Mas o resto tem sido previsível como um sonho que se repete todas as noites. Eu já acordo sabendo quase que exatamente tudo que vai acontecer. Não que eu não goste de um pouco de previsibilidade, é bom não viver de sustos. Mas isso também limita muita coisa, muito da minha visão de tudo. Penso que quando as pessoas têm vivências limitantes, toda sua alma fica muito limitada, pequena, sem criatividade, e acaba lhe faltando uma potência importante para fazer a vida ser impelida por um caminho mais produtivo.

Eu insisto em escrever porque isso foi o que me restou de atividade que demanda um pouco mais de mim, da minha alma, do meu pensamento. Mas eu vejo as palavras esperando impacientes para serem usadas, quando na verdade o que falta é assunto.

Já pensei em contar histórias, imaginar qualquer vida, até mesmo me imaginar na pele de outra pessoa, olhando o mundo através dos seus olhos e escrever sobre isso. Mas eu não sei, sinto que eu infectaria meu hospedeiro imaginário com muito de mim mesma.

Eu poderia por exemplo dar voz ao meu alter ego. Ocorre é que eu não o conheço. O que meu ego gostaria de ser e não o pode? Que tipo de pessoa eu gostaria de ser e não sou? Que coisas gostaria de realizar e não o faço?

Curioso que eu imaginei um projeto que seria executado no meu último ano antes dos temidos 30. Imaginei uma série de coisas que eu gostaria de ser antes dos 30, mais organizada, mais focada, mais bonita, mais magra, mais inteligente, mais culta. De alguma forma tudo isso perdeu significado, importância ou sentido. Eu já sinto que não sou muita coisa, o que aconteceria então se eu programasse o que resta de mim mesma? Lógico que todas essas características são ótimas de se ter, eu não abandonei o projeto, apenas não estou apaixonada por ele. Se antes eu via com urgência a consecução de cada uma dessas etapas de aprendizado, hoje eu levo tudo com paciência e uma pitada de procrastinação.

Fico me perguntando se a vida é isso mesmo. Quando se é jovem se é estúpido demais para fazer de tudo um turbilhão de emoções. Quando se passa por uma determinada idade, tudo é calmaria e emoções não lhe definem mais. Todo mundo quer emoção, só que boa. Muita alegria, muito êxtase, muita euforia, muito prazer. Mas nenhum gozo sai impune, essa é que é a verdade. Para cada minuto bom que você tem na vida, meses precisam ser vividos com trabalho árduo e desagradável.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Eu realmente queria poder desabafar, mas eu não me sinto bem conversando com ninguém. Nem mesmo meu terapeuta, que me oferece um campo absolutamente neutro, onde a minha fala é a única coisa que importa, consegue fazer eu me sentir à vontade.

Talvez seja porque muitas coisas eu não quero confessar nem para mim mesma, talvez porque eu não tenha sentido conexão com ninguém para expor as coisas que venho sentindo.

Muita coisa mudou. Me sinto mais senhora de mim, dos meus planos, dos meus desejos e sonhos em relação ao futuro. Pela primeira vez eu não me paraliso com os problemas, porque estou sempre vendo uma luz lá na frente para onde estou caminhando e por onde eu sempre soube que para se chegar lá, o caminho seria difícil. Difícil o suficiente para fazer valer a pena chegar lá.

Tenho sonhado em me deleitar com tudo que existe de conhecimento humano sobre a mente, sobre as emoções, sobre os atos, sobre como as pessoas se constroem tais como são. Não sei bem se ficarei rica fazendo isso, mas sei que todo tipo de realização que me interessa eu vejo tendo nessa empreitada. Talvez eu acabe entendendo as pessoas que me cercam, as que sempre me machucaram, as que não percebem que existe algo além de suas vontades e birras.

Já fui acusada, até por mim mesma, de ser uma pessoa egocêntrica. Acredito que quando se rodeia de pessoas que não veem nada além de si mesmas, se constrói dentro de si uma necessidade desesperada de ser ouvida, de ter atenção.

Eu acredito que tenho feito tudo pelo Johnny. Minha dedicação a ele é completa: ele tem minha fidelidade como mulher, minha lealdade como amiga, meu investimento como alguém que está numa situação melhor do que ele e, apesar de não haver nenhuma obrigação, eu me sinto impelida a dar todo o apoio que for possível para vê-lo bem, vê-lo progredindo. Resumindo, eu estou cuidando dele. E isso não me trás nenhuma vergonha ou nenhum sentimento de raiva ou de arrependimento, como costuma acontecer frequentemente com minha mãe em seu relacionamento. Mas o que tem acontecido, é que ele não tem ajudado a me fazer manter essa mente aberta e em paz.

Ele reclama de tudo, sempre. Nunca as coisas estão boas o suficiente, e nada do que eu faço é bom o suficiente. Ele sabe apontar erros como ninguém, agradece por coisas banais, mas simplesmente ignora coisas que eu não faria nem por familiares. Agradecer por uma coisa banal faz parte de uma forma mecânica de parecer um parceiro agradável, talento que ele acha, erroneamente, que domina.

Ele sempre soube que eu não estava preparada para assumir o papel de esposa e de dona de casa quando resolvi que ele viria morar comigo. Na verdade eu estava me preparando para finalmente viver só novamente depois de tantos anos. Ter meu espaço, minhas regras. Mas eu o vi em uma extrema dificuldade e percebi que de nada valia minha "liberdade" se fosse para não estender a mão à ele, salvá-lo de uma situação de risco.

Eu, da minha parte, sempre soube que as coisas seriam assim, mas eu tive fé. Fé de que talvez ele reconhecesse o que estou fazendo por ele, nem como namorada, mas como pessoa. Não espero vivas e aplausos, mas também não esperava berros constantes como se eu fosse uma criança que não sabe fazer nada certo. Não imaginei que ele tomaria conta da minha vida, das minhas escolhas, e até mesmo das minhas opiniões e pensamentos, tentando me impor tudo o que ele é e tudo que no que ele acredita na base da passiva-agressividade, mesmo eu fazendo tudo que tenho feito.

O que eu quero apenas é respeito e reciprocidade. Ele pode continuar a ter todas as opiniões possíveis, porque por mais que eu não concorde com a maioria delas, eu o respeitarei como pessoa, sempre. Ele só precisa aprender a fazer o mesmo comigo.

Mas ao contrário disso são tantas coisas que me soam como um profundo desrespeito por tudo que estou dedicando a ele. Primeiro, ele não consegue falar comigo nada que não envolva um aumento no tom de voz e uma clara marca de agressividade. É curioso que até nas expressões corporais dá para notar sua vontade de intimidar: um passo a frente, uma postura mais ereta, como quem está "crescendo" diante de mim. E quando eu falo algo, uma das melhores formas de finalizar o assunto numa única frase é afirmar o quanto o que eu estou dizendo é estúpido. Ele está constantemente lendo ou se informando sobre uma determinada coisa e me joga quase que literalmente uma notícia na casa sobre o assunto e dispara: e aí, o que você acha sobre isso? Sem base, sem contexto, sem preparo, sem leitura e sem vivência sobre o assunto me limito a responder que não tenho opinião sobre. Parece que desonrei ele, que o desapontei profundamente e como castigo, ele tem que falar comigo e me olhar com desdém ou até com raiva. Para ele, parece que meu silêncio sempre é um convite para uma guerra ideológica.

Eu não suporto mais seu conservadorismo chato e petulante, tão cego como a esquerda que clama por falsos heróis. Ele já começa uma discussão pronto para dizer que estou errada, pronto para atacar com ferocidade caso minha linha de pensamento não esteja de acordo com a dele e, pasme, se tiver de acordo também. Ele tem uma fome insana de provar que é intelectualmente melhor do que eu quando pra mim isso não faz a menor diferença.

Talvez ele tenha se sentido um pouco intimidade desde o começo da relação por causa do fato de eu sempre ter tido (e ainda ter) todo o apoio possível para ter uma boa educação. Intimidado também porque ele já me pegou numa fase em que minha auto estima está acima de muita coisa, o que não era comum nas suas mulheres anteriores. Intimidado por eu ter praticado relacionamentos sem apego. Quando ele fala das mulheres anteriores, a impressão que dá é que elas colecionavam alguns fracassos que de alguma forma o colocava como superior à elas. Uma não estudou nem nunca trabalhou e não tinha nenhum talento a não ser seduzir homens por farras. A outra, era extremamente carente. De algum jeito ele se destacava em relação à elas. A primeira o fez de bobo por muito tempo, até ele pegar as rédeas da sua vida e decidir que nunca mais alguém faria algo do tipo com ele. A outra era a pessoa errada, na hora e no lugar errados. Pegou um Johnny excessivamente confiante para sua excessiva carência e de alguma forma amargou ser o "cachorro pequeno" da relação.

Ocorre é que eu não me sinto ligada à esse relacionamento de uma forma doentia e acho que ele sente falta disso. Eu não morro se ele for embora, minha vida continuará no minuto seguinte, sem grandes dramas. Eu tenho minhas vivências, minhas experiências que foram e as que estão por vim, eu tenho minha auto confiança e meu amor próprio. Eu não preciso estar ao lado dele, eu quero estar ao lado dele. E talvez ele tenha medo de saber que é só uma questão de escolha, não de necessidade. E não adianta que ele vocifere acusações de que por isso eu sou uma feminista que "odeia" homens, eu não quero abrir mão de ser a pessoa que eu sou por causa de suas inseguranças. Eu poderia ter milhares de inseguranças em relação à ele, mas não quero deixar que elas surjam, se levantem contra mim e firam meu bem estar comigo mesma.

O que mais me preocupa nisso tudo é que aparentemente ele tem uma imensa resistência em mudar. Já conversamos sobre isso, amigavelmente e nem tanto, mas ele não muda. Talvez ele tente fazer um esforço, eu não sei, mas o fato é que nunca muda nada. E o que eu queria que ele soubesse a tempo é que eu não tenho obrigação nenhuma de viver isso, de ser tratada desse jeito, particularmente por uma pessoa por quem tenho me esforçado tanto. Não quero que chegue um momento em que eu me sinta perdendo meu tempo, minha paciência, minha vida numa relação abusiva, e então peça para ele se retirar da minha vida, já que todos os meus esforços para ele se adaptar à ela não foram suficientes.

Ele trata nosso possível fim como uma imensa falta de moral minha. Sempre que isso vem em questão, ele sempre tenta colocar como se a única razão pela qual eu terminaria nosso relacionamento seria para viver outros da mesma forma desapegada que vivi outrora. Não ocorre a ele que esteja cometendo erros que estão nos corroendo. Erros que ele tanto fala que casais cometem e por isso findam. Ele sabe apontar os erros dos outros, mas nunca percebe os seus próprios.

Estou cansada da agressividade, do seu desrespeito, da sua ingratidão, da sensação de competição que ele resolveu instalar entre nós. Estou cansada dele se sentir senhor da minha vida, quando ele não é nem mesmo da dele. Estou cansada de ajudar alguém que não consegue pensar antes de me tratar mal, que não filtra o que diz e como me diz.

Ele abomina pessoas que descontam suas insatisfações nos outros, como minha mãe, por exemplo, mas ele não entende que faz isso o tempo todo comigo. Eu preciso perguntar várias e várias vezes o que foi que aconteceu, o que eu fiz. Eu preciso andar pisando em ovos dentro da minha própria casa porque ele está insatisfeito com a própria vida. Ocorre que não estou levando a vida que sempre sonhei, muitos problemas estão no meu dia a dia, inclusive a forma como ele me trata, mas eu não vou descontar nele nem em ninguém, vou tentar olhar para frente e esperar o melhor possível do futuro. Isso porque eu dou muito valor ao que eu tenho, agradeço muito a quem me ajuda, trato-os com o máximo que posso de respeito e gratidão. Eu sei que por mais que as coisa estejam difíceis, por mais que elas não sejam as ideais, mas alguém me ama o suficiente para me dar apoio e isso facilita muito as coisas. Então eu vejo o que eu tenho, sou grata por isso, e vivo um dia de cada vez, pensando em que coisas posso fazer para tornar a minha vida e das pessoas próximas a mim, hoje e no futuro, melhor.

Venho tentado muito manter um tipo de paz interior que se baseia unicamente na repressão de todo e qualquer tipo de reação às coisas que me irritam ou me machucam. Mas tudo que se reprime vai escoar em algum lugar, e eu tenho bebido com uma frequência que espanta até à mim. Ontem eu tomei quase 1,5 l de cerveja no intuito de relaxar. Relaxar de quê? É difícil de entender que eu não estou bem, que beber todos os dias, ainda que não seja para ficar de porre, é um pedido de ajuda? Não é um mero costume que eu adquiri recentemente. Dormir em excesso também sempre foi um conhecido pedido de ajuda, ele sempre soube disso, mas quando isso acontece, ele não me apoia, ele não me abraça forte e diz que ficará tudo bem, que ele está ali por mim, para mim. Ele grita, ele se incomoda com a hora que eu durmo e com a hora que acordo até mesmo quando são horários normais. Porque ele tem a errada ideia de que ele é a medida de todas as funções da casa, mas isso não é verdade. Nós deveríamos juntos definir essa medida, já que ele não aceita que cada um viva a sua.

Repetindo, só espero que ele acorde a tempo e perceba que estou aqui o tempo todo, ele é quem não vê. E quando eu deixar de estar, não há nada que ele poderá fazer.