É difícil estar numa crise de criatividade. Não sei bem nem se esse é o nome, já que sempre que eu escrevi não criei mesmo alguma coisa, sempre foram desabafos ou pensamentos meus. Mas de qualquer forma, me falta até mesmo isso. É difícil porque eu sempre encontrei no ato de escrever um conforto e até uma sensação de prazer, de satisfação, de gozo. Isso ser tirado de mim sem motivo me é estranho e injusto.
Me recordo que houve época em que eu escrevia freneticamente, sobre tudo, o tempo todo. Acumulei dezenas de cadernos contendo todo tipo de sensação juvenil, todo tipo de mágoa de berço, todo tipo de descoberta que uma pessoa muito jovem pode fazer. Mas sempre existiram olhos ávidos, curiosos e maliciosos que caçavam meus escritos para usá-los contra mim. Cheguei a montar esconderijos, a escrever em códigos, até que cansei desse esforço e apenas deixei de escrever. As pessoas que tanto procuravam, fuçavam até o subsolo se fosse necessário para achar algo meu, então o melhor era não ter mais o que eles achassem.
Então se passaram alguns anos. Deixei de escrever e quando eu pensava em pegar uma caneta e um papel, pensava em quem poderia ler aquilo. Desistia. Hoje me sinto um pouco mais livre para poder escrever, não necessariamente o que eu bem entender, mas alguma coisa, e então travou tudo. Me desacostumei a ver na escrita um escape. Na verdade, na linguagem no geral, já que não consigo sequer falar com quem quer que seja sobre o que penso e como me sinto.
Tem sido difícil mesmo, porque tenho para mim que desaprendi a me comunicar. Nunca consigo ser clara com as pessoas que estão ao meu redor, sempre falo coisas dúbias, não consigo organizar o que penso sobre determinadas coisas, ou organizar argumentos e usá-los. Dou informações erradas, falo palavras que eu não queria falar, que as vezes são exatamente o oposto daquilo que pensei em falar.
Conheço algumas pessoas que não fazem valer o ditado de que comunicação é tudo. Minha mãe por exemplo não escuta nada que não seja dito pelos demônios interiores dela. Quanto à Johnny eu não sei dizer com certeza. A maior parte das vezes que conversamos sobre algo tenho a impressão de que ele não quer conversar, ele só quer alguém sobre quem ele vai demonstrar que está correto. Mas e se for o caso de eu não estar sabendo dizer a ele o que penso sobre as coisas que discutimos? E se o caso for de que eu não estou sabendo me fazer entender?
Comunicação será meu instrumento de trabalho daqui por diante. Por toda a minha vida minha tarefa principal será me comunicar com pessoas, ouvir o que elas têm a dizer e dizer a elas coisas que ajudem. Tendo essa falha, como vou poder executar meu trabalho?
E isso não é apenas um problema profissional ou de relacionamento com o outro. Eu sinto falta de me entender, de me compreender, de falar comigo mesma e entender.
A quase um ano atrás eu passei por um rompimento. Uma pessoa fazia parte de todos os meus dias e de quase todos os departamentos da minha vida. Sempre acreditei que nunca nutri por ela nenhum tipo de paixão romântica que fizesse o rompimento ser um imenso trauma (como já foi com outra pessoa, em outro momento). Na verdade planejei tanto nosso afastamento que no primeiro momento, não estranhei que ela não estivesse mais ali. Até que eu senti falta de conversar com ela. Seria uma paixão romântica surgindo tardiamente?
Pensei muito se esse era o caso. Até que eu tentei voltar aos momentos que passamos juntos para entender a razão de estar sentindo falta deles agora. A resposta nunca é simples, mas tem uma linha principal. E a linha principal era que eu não tinha medo das consequências do que eu falava para ela. Por isso, eu falava sem grandes travas e isso servia como um escape. Ela não era um psicólogo, na verdade nem era muito esperta para entender as coisas que eu dizia, mas eu não precisava ter medo de dizer. Muitas vezes ela nem sequer prestava atenção, se enfadava, se entediava, mudava de assunto, mas nunca me punia pelas coisas que eu dizia.
Hoje em dia tudo tem que ser bem medido e bem pesado antes de sair da minha boca. Na grande maioria das vezes, mesmo com todo o cuidado, eu falo o que não devo e sou punida por isso. Eu já vivi essa censura quando escrevia, agora eu a vivo quando falo. E assim como a censura atrofiou minha capacidade de escrever, está atrofiando minha capacidade de falar.
Então mesmo quando eu deveria me sentir segura para falar, como numa sessão de terapia, eu não sei como falar. Não encontro mais conforto na fala, não consigo mais falar abertamente. Fico pensando se eu é que sou azarada por estar sempre perto de pessoas que me tolhem direitos básicos como o da comunicação ou se eu estou cometendo um erro repetidamente com as pessoas ao meu redor, permitindo que elas me censurem. É uma questão que exige reflexão.
Sinto muito que as pessoas estejam sempre muito preocupadas com o que os atos e palavras signifiquem de imediato e em sua superficialidade. Ninguém se questiona o que realmente aquele ato ou aquela palavra quer realmente dizer, ninguém quer se aprofundar em ninguém, nem mesmo nas pessoas com quem convive. E esse será meu trabalho, só que com estranhos. E sempre será um estranho que se importará em fazer o mesmo por mim. É triste que as coisas pareçam sempre em preto-e-branco quando é óbvio que as nuances são infinitas. Por isso as pessoas passam 50 anos juntas e no entanto não se conhecem. Reconhecem hábitos e movimentos automáticos que qualquer um que tivesse tempo o suficiente para observar saberia. Mas não conhece a fundo o que a pessoa pensa, como ela se sente, por que ela pensa ou sente seja lá o que for. Isso sempre será o trabalho de um estranho, e isso é uma pena. Porque o estranho estará ali por dinheiro, na melhor das hipóteses para ajudar um tráfego de informações tentando desafogar apenas uma via, quando na verdade existe milhares delas. Cada pessoa com quem o paciente convive e se comunica é uma via pela qual ele recebe informações e estímulos que vão fazer dele uma pessoa melhor ou pior, mais completa ou mais vazia, mais feliz ou mais insatisfeita. Eu não acho que a solução seja meramente treinar o paciente para se conformar com o fato de que os outros simplesmente não o compreenderão e que ele tem que aprender sozinho a lidar com essa frustração e essa solidão no meio da multidão.
Eu dizer para um estranho como eu me sinto em relação aos atos de uma pessoa na minha vida vai mudar talvez como eu lido com esse sentimento, mas na verdade o importante seria mudar os atos dessa pessoa, caso eles sejam realmente nocivos. Acredito que todas as pessoas deviam tentar se conectar profundamente ao menos com as pessoas que amam, com as pessoas com quem se importam. Ouvir sem medo, sem julgamentos, tentar entender antes de se ofender, tentar ir à raiz das coisas, deixar a pessoa falar tudo que está dentro de si para depois analisar junto com ela, isso é conhecer uma pessoa de verdade. Isso é um real esforço de ser feliz com esta pessoa.
Mas isso é uma utopia. Todas as pessoas precisariam ser formadas em Psicologia para isso, além do que é sabido que mesmo na Psicologia, o terapeuta precisa invariavelmente manter uma boa distância do seu paciente. Qualquer aproximação compromete todo o processo.
E cá estou, tentando me conformar com a frustração de ter que viver só ao lado das pessoas que amo e encontrar companhia nos ouvidos de um estranho. As coisas parecem terrivelmente erradas.